Segunda-feira, Novembro 16, 2009

A Instrução dos Amantes

Desafiaram-me a ler o “Fazes-me Falta” da Inês Pedrosa. Depois não se encontrava o livro, e apareceu a “Instrução dos Amantes”. Má troca só pode ter sido, pois não pode o primeiro volume referido ser pior do que este.

Temos portanto dois planos cuja intersecção pode ser ou não produtiva.
Primeiro, como escreve Inês Pedrosa, e segundo o que escreve Inês Pedrosa.
Pelos visto muita gente identificou (-se) os/nos anos de adolescência descritos pela escritora. Por outro lado a digamos frescura da sua escrita cativou uma mão-cheia e mais alguns.
A mim vos digo que assim foi: primeiro, a minha adolescência aqui não está – e a minha geração é pouco mais nova que a de Inês Pedrosa. Verdade seja dita que a minha adolescência estritamente falando não foi muito linear, mas porque de olhos fechados não se alimenta nem a alma nem o corpo, julgo acho creio que as adolescências havidas à minha volta não eram assim. Nem os amores, paixões, conquistas de castelos, whatever the works were. Por outro lado esta dita frescura, é Clara Pinto Correia a não saber escrever, e está dito. O texto é pobre, as imagens banais, o volteio não sobe nem se evola no ar – toma, evola, hã? Aprende, rica! Escrever mal também eu sei!
As coisas nem correram bem nem mal para a malta destas ruas assumo que lisboetas. Verdade seja dita que eles, a quem os escreveu com eles, não merecia mais.

"-Livra-te de lhe dizeres que ela é tão bonita como a Marylin.
-Mas julgas que eu sou estúpido ou quê?
-Pois. Ainda por cima ela tem cara de Neanderthal.
-Cara de quê?
-Nada, esquece.
Para além de deusas e ninfas, pode acrescentar-se à lista das comparações permitidas algumas flores ("rosa mas não gladíolo," especificava ela "orquídea mas não glicínia, não vá a pequena pensar que está a ser comparada à vizinha do lado2), todas as estrelas ("do céu e do mar") e alguns outros elementos da natureza, como o Sol ou a Lua.
Um elemento estilístico de efeito garantido, explicava, é a surpresa. Junte-se a um substantivo um adjectivo improvável e obter-se-á um resultado estrondoso.Exemplos, meditava ela. Coração guloso, pernas angelicais, olhos inflamáveis.
-Uf, nunca pensei que isto fosse tão complicado."

Mas é, Inês, mas é. Recenseando os meus amigos de liceu que eu alguma vez ouvi a fazer "Uf!", não me lembro de nenhum. Nenhum humano, entenda-se, porque cães uns quantos, e presumo que outros animais, esses meus amigos não, plantígrados, isso, e juntando um adjectivo improvável, perigosos...

1 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

[url=http://www.xbox360achievements.org/forum/member.php?u=259462]buy mexitil[/url]

3:04 AM  

Enviar um comentário

Terça-feira, Novembro 03, 2009

A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX


Eis uma antologia temática de poesia saída na Assírio&Alvim, seleccionada e prefaciada por Manuel de Freitas, o Homem-Averno. O tema é abordado com largueza, donde não ser demasiado "pesada" a colecção. As escolhas (ah, as escolhas!) são as adivinháveis e muito aceitáveis, mas por defeito - porque se exclui Al Berto, Ruy Belo, sobretudo, mas também o O'Neill, a Fiama, talvez David Mourão Ferreira merecesse algum escrutínio... Outros excluiram-se, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães. Costumes!
Toda a poesia aqui incluida é superlativa.
Agora... quando MF inicia a escolha de Jorge de Sena com o poema "Lepra", espero que o faça quase como uma auto-crítica.

Esquecendo, a antologia começa com Vitorino Nemésio: "Vamos ver se te levanto / Com estas palavras escuras / Que são a luz do meu canto / Vamos a ver se pode ser."
E termina com José Amaro Dionísio: "Só para confirmar: toda a sobre- / vivência é um crime."

Agradeço o José Amaro Dionísio e o relevo dado a António Manuel Couto Viana. Obviamente que é um livro a comprar.

"LEPRA

A poesia tão igual a uma lepra!
..............................................
E os poetas na leprosaria
vão vivendo
uns com os outros,
inspeccionando as chagas
uns dos outros."

Jorge de Sena


P.S.:


melhor antologia sobre a morte não houve que a pequena edição de - acho que eram quatro poemas sobre a morte de Ruy Belo pela Oiro do Dia, certo?, um do Fernando Assis Pacheco, outro do Joaquim Manuel Magalhães... perdi este "folheto" numa curva da vida e como tenho pena, melhor antologia não havia!

6 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

It is very a pity to me, that I can help nothing to you. But it is assured, that you will find the correct decision. Do not despair. [url=http://cgi3.ebay.fr/eBayISAPI.dll?ViewUserPage&userid=acheter_levitra_ici_1euro&acheter-levitra]acheter levitra[/url] I think, what is it good idea.

5:15 AM  
Anonymous Anónimo disse...

I found this site using [url=http://google.com]google.com[/url] And i want to thank you for your work. You have done really very good site. Great work, great site! Thank you!

Sorry for offtopic

4:35 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Quelle question utile runfr.com cialis [url=http://runfr.com]achat cialis en ligne[/url]

4:08 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Vous doit dire cela — le mensonge. acheter cialis generique acheter cialis [url=http://runfr.com/acheter-cialis]acheter du cialis[/url]

8:31 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Who knows where to download XRumer 5.0 Palladium?
Help, please. All recommend this program to effectively advertise on the Internet, this is the best program!

4:56 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Je pense que c'est l'erreur. Je peux prouver. viagra en ligne acheter du viagra [url=http://lettresdudroit.com]achat viagra[/url]

6:56 AM  

Enviar um comentário

A Viagem do Elefante


Foi-me oferecido pelo Natal este livro, e decidi agora lê-lo. Não acresce em nada esta polémica recente sobre "Caim" e a Bíblia. Serviu isto para alguns/muitos não perderem a oportunidade e insultarem o Nobel. Que é um Nobel, caramba! Que hoje por hoje ressuscitou de uma forma muito laica e escreve um livrinho q2y.
A "Viagem do Elefante" é um divertimento Saramaguiano. Pode também, ou não, ser nosso. Tem ateísmos qb., ironias e alguma brincadeira, porrada não tanto com os espanhóis como sobretudo com os austríacos, filosofia elefantina e do cornaca respectivo. Não é um grande livro, já disse aliás que é um pequeno livro, uma novela mais propriamente. Ninguém podia pedir um Nobel por estas duas centenas de páginas, ou pouco mais. Mas o Nobel não passou por aqui.
Daqui não vem mal o mundo, e muito bem também não. Literatura light esta, acreditem, e bem melhor do que a assim chamada, que (o inexistente) Deus os confunda!
Vou a seguir começar a ler os Saramagos antigos, coisa que na verdade nunca me deu para, com excepção do "Memorial..." há mais de vinte anos, leitura que portanto não conta - desconta...

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

O Cónego


A. M. Pires Cabral é dos maiores poetas portugueses vivos. De um reconhecimento progressivo e nunca desapontado pelas sucessivas recolhas de poesia que têm vindo a lume. Esta noção, começada na crítica de Joaquim Manuel Magalhães, é hoje consensual. A.M. Pires Cabral tem porém também publicado obra em prosa, bem menos comentada e assumida como património a reter.
Vem tudo isto a propósito de um pequeno romance publicado em 2007 nos Livros Cotovia e que dá pelo nome "O Cónego". É o nosso autor transmontano de Chacim, Macedo de Cavaleiros. Na sua poesia, o lugar, a terra, os montes, são presença marcante. Este romance trata também duma realidade muito rural portuguesa e transmontana, a do binómio entre um pároco e outra figura grada da freguesia, neste caso - a acrescentar aos costumes - um cónego retirado, e retirado porquê - por causa de amores. Relata em 1ª pessoa um novo padre - o que irá substituir o moribundo par desta dança - as várias versões que por mórbida curiosidade vai coligindo da vida desse Cónego que foi parceiro do dia-a-dia do velho padre da aldeia. Versões onde a verdade se cruza e perde e fica tremida. Zangas, paixões, coisas de gente mexida e antiga, descritas "à antiga"  pois assim ressoa a escrita de A. M. Pires Cabral, lembrando escritores que já morreram, Aquilino, Camilo, e não sei dizer se o faz de propósito pois é o 1º romance que lhe leio. É um mundo antigo que ganha cor nestas palavras, um mundo de castanhos e pretos e cinzentos, mas também um mundo de correntes subterrâneas às vezes difíceis de deter e represar.
Agora sumamente moderna esta conclusão:

"De forma que olho para as mãos cheias de fragmentos de verdade sem conseguir reuni-los num conglomerado em que a reconheça - a verdade pura e resplandescente, tal como ma ensinaram a amar. Não há que fugir: chego ao fim desta complexa história sem conhecer a verdade, por muito que a tenha procurado, por muita paciência, obstinação, perfídia e raciocínio que tenha investido na sua busca. Acho que posso portanto deduzir que a verdade não existe. Pura e simplesmente não existe. Se me perguntarem se existe, direi que não.
E, pelas mesmas razões, também direi que não existe a mentira. Direi que as duas são uma só e a mesma coisa, e que nenhuma é a contrapartida da outra, nem se excluem mutuamente. A contrapartida comum de ambas é a dúvida - a eterna, opressiva, vexatória e voracíssima dúvida."

E disse o Escritor.

Fazendo disto uma corrida à antiga portuguesa refira-se que este romance já foi traduzido para o italiano.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

El Amor de Una Mujer Generosa

Alice Munro é a mais conhecida autora canadiana de short stories. A expressão inglesa dobra o expressivo da palavra portuguesa "conto": são histórias e curtas.

E as de Munro são das melhores. Algures entre apatia e o mais puro veneno, estes contos de mulheres falam de rectas e de curvas onde acontece vida, e o acidente, o transtorno, o imprevisto, o inevitável. Contos raramente estridentes, decapados para transmitir vário tempos sem sobressalto - o fluir dos enganos e dos tiros sendo só isso, um afinal lento fluir onde a tensão escorre e não pára. Vejamos um exemplo:

"Este dolor agudo. Se hará crónico. Crónico significa que perdurará aunque tal vez no sea constante. También puede significar que no morirás de ello. No te librarás pero no te matará. No lo sentirás a cada minuto pero no permanecerás mucho tiempo sin que te haga una visita. Y aprenderás algunos trucos para mitigarlo o ahuyentarlo, tratando de no destruir aquello que tanto dolor te ha costado. No es culpa de él. Él es aún un ingenuo o un salvaje que no sabe que en el mundo existe un dolor tan perdurable. Debes decirte: de todas formas las perderás. Crecen. A una madre siempre le espera esa desolación privada y  ligeramente ridícula. Olvidarán estos tiempos y de una forma o de otra renegarán de ti. O seguirán pegadas a tus faldas hasta que no sepas qué hacer con ellas, como le pasó a Brian.
Y, aún así, qué dolor. Seguir viviendo y acostumbrarse hasta que sólo sea el pasado lo que duela, y no cualquier presente posible.
Sus hijas han crecido. No la odian. Por haberse marchado o no haber vuelto. Tampoco la perdonan. De cualquier manera, probablemente nunca la habrían perdonado, pero sería por alguna otra cosa.
Caitlin tiene pocos recuerdos del verano en la playa, Mara no recuerda nada. Un día, Caitlin se lo menciona a Pauline, refiriéndose a ello como "ese sitio al que iban la abuela y  el abuelo".
- El lugar en el que estábamos cuando te marchaste - dice -. Lo único es que no supimos hasta más tarde que habías huido con Orfeo.
- No era Orfeo - dice Pauline.
- No era Orfeo? Papa solía decir que era Orfeo. Decía: "Y entonces tu madre se fugó con Orfeo".
- Bromearía - dijo Pauline.
- Siempre creí qu se trataba de Orfeo. Entonces era otra persona.
- Se trataba de otra persona relacionada con la obra. Alguien con quien viví durante una temporada.
- Pero no Orfeo.
- No. Nada que ver con él."

Uma crítica em blog muto boa sobre este livro.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Outubro 18, 2009

El Danubio


Claudio Magris é um germanista nascido em Trieste, uma das cidades italianas menos italianas.
Neste livro, saído em 1986, propõe-se - e consegue-o - fazer a mais circunstanciada das viagens, a decorrer entre as nascentes do Danúbio e o seu delta, portanto entre a Alemanha profunda e o Mar Negro. Felizmente escrito antes da queda da cortina-de-ferro, trata-se de um livro de um grande erudito que ama a ideia da mitteleuropa até ao âmago, não se deixando porém encadear pelo falso das suas luzes. Países, figuras, poetas, escritores. Barbearias, esquinas, quintais, cafés e museus. História, presente, passada, e um cheiro discreto a disautonomia, pois aqui não há nenhuma antevisão do que iria acontecer apenas poucos anos depois. Sintomaticamente, os textos sobre a Jugoslávia não deixam de ter um sabor particularmente amargo.

"PENSAR EN "VÁRIOS PUEBLOS.

La história me la contó Miklos Szabolcsi, en su casa de campo de Göd, en los alrededores de Budapest. El río corría tranquilo, de noche, hacia su lejana desembocadura, y se hablaba de viejas histórias de Temesvár, Timisoara, Temeschburg, la ciudad (húngara?, rumana?, alemana?) protagonista de tantas histórias de la Europa oriental, desde los tiempos de los tártaros a los de los turcos y esde el príncipe Eugénio a Francisco José. Hace unos años Szabolcsi habia intentado recordar, en una serie de programas televisivos, el fervoroso ambiente cultural húngaro de las primeras décadas del siglo XX, la gran época del joven Lukács, Endre Ady y Béla Bartók, recuperando toas sus figuras mayores y menores, y reconstruyendo sus histórias incluso después del final de ese período genial y apasionado, clausurado, en los años veinte, por la instauración del régimen fascizante de Horthy.
Después de diversas investigaciones, el mosaico reunido por Szabolcsi estaba casi completo, pero le faltaba una pequeña pieza; habia perdido el rastro de un tal Robert Reiter, o mejor dicho Reiter Robért, poeta húngaro de vanguardia que había formado parte e los más combativos grupos experimentales. Un auténtico crítico literário es un detective, y  es posible que la fascinación de esta discutible actividad no consista en las interpretaciones sofisticadas, sino en el olfacto de sabueso que conduce a un cajón, a una biblioteca, al secreto de una vida. Así llegó Szabolcsi a su hombre; es decir, se enteró de que Reiter Robért seguía vivo, que vivía en Timisoara, en Rumania, y que ahora se llamava Franz Liebhard y escribía versos más bien tradicionales en alemán, sonetos y rimas alternadas. Había cambiado de nacionalidad, de nombre, de lengua y de estilo literário; hoy se le honra como patriarca de los escritores en lengua alemana del Banato, o sea de la minoría alemana que vive en Rumania, y en Agosto de 1984 celebró su ochenta y cinco cumpleaños."

Para que nos apercebamos da actualidade deste livro, Hertha Müller, recente Prémio Nobel, é um alemã nascida neste mesmo Banato romeno - dentro desta minoria de alemães que para aqui emigraram como colonos eg. no séc. XVIII - e que teve de fugir da ditadura de Ceausescu, com destino óbvio Berlim - Ocidental. A sua 1ª língua sempre foi portanto o alemão. Claudio Magris esclarece.

"Danúbio" é um livro fantástico, é a "viagem histórico-literária" por excelência, é um livro genial.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Sábado, Outubro 17, 2009

A Música das Esferas


Não sei o que se passou com a Clara Pinto Correia e admito que nunca virei a saber nem terei direito a tal sabedoria mas eu sei, de fonte segura e fiável que é o eu ter estado lá, que ela já escreveu muito bem, desesperadamente bem, cumprindo aquela profecia de precocemente dotada que por aí circulava.
E como prova vem então esta colecção de três pequenas coisas que juntas agora – agora sendo no ano 1995, portanto pouco depois – se constituem no livro “A Música das Esferas”, das ed. Relógio de Água. Antes os três textos tinham sido editados na Rolim e não pela ordem que neste livro estão: “Um Esquema” em 1985, “Campos de Morangos Para Sempre”, 1987 e “O Príncipe Imperfeito” em 1988.

Vou passar de largo o prefácio de CPC: não serve para nada e exemplifica alguma da escrita circular e portanto pouco interessante que a tem distinguido nos últimos anos. As referências científicas, temo, só agravam a coisa. Decido portanto passar aos textos, um a um.

Terão perguntado a CPC se algo em “Um Esquema” era autobiográfico. Pois. De que trata? De um esquema. Algo que acontece entre duas pessoas, até conhecidas já antes mas que sucede um dia tropeçarem muito uma na outra. E retropeçam durante um tempo, até ao natural fim. Enquanto isso namoram, circulam entre amigos e trabalho e a lenta velocidade do tempo que a todos une. O relato é feito adoptando a perspectiva dos próprios, de vários intervenientes, testemunhas, cúmplices, assessores.
Começa:

“Foi assim, pronto. Comecei a gostar muito dele, e daquele cheiro de água de colónia para bebé que lhe anunciava a proximidade. É evidente que nunca duvidei de que ia retirar daquilo alegrias apreciáveis. (...)”

E termina primeiro com uma carta de despedida nunca expedida, como já houve muitas, as palavras estão mesmo lá:

“(...) se queres saber o que apetece realmente (não deves querer, mas paciência), então digo-te já que me apetece chorar, insultar-te imenso, telefonar-te a fazer uma cena enorme, perguntar-te porquê, porquê. (...)”

“(...) As pessoas, sabes, não devem deixar-se penduradas, como casacos velhos num bengaleiro. Fizeste-me sentir uma presença absorvente, incómoda, vergonhosamente voraz perante a tua falta de desejo. Foi muito mau. Podias ter-mo poupado. (...)”

E a seguir a esta não enviada carta o último testemunho, já pretérito, o último raio de luz, "le rayon vert" como diria Julio Verne, a tal luminosidade rara que o encantamento pode transmitir a todas as coisas à sua volta:

“(...)
Íamos e vínhamos, eu e ela, com as travessas, e trazíamos os lagostins com limão por cima, quando ela parou, a falar comigo, encostada à parede. Estava radiosa, como sempre estão os eleitos. Não percebi porque é que ficávamos ali no meio do caminho, até que o vi chegar lá do fundo, afogado em cadeiras, a avançar pelo corredor, até estar mesmo à nossa frente. Então ela passou por mim como se não me visse, mas era só para meu deleite que o fazia. Envolveram-se num olhar abrasador, eu a assistir, e seguiram juntos em direcção à sala, pelo corredor, lado a lado.
Nunca saberei o que houve exactamente entre eles, naqueles meses em que os dias estavam quentes e compridos. Nem sei muito bem se aprovo este tipo de coisas. (...)”

A cara e a coroa do dinheiro com que se compra a vida, eis. Nunca melhor descrito em coisas por mim lidas, acho. Por uma vez o manejo por CPC do vocabulário vulgar não polui antes acrescenta uma sensação de possível pertença nossa a este mundo, algo de parecido já nos terá acontecido e se não, temos pena.

O 2º texto é um libreto para uma ópera com prólogo e um acto e chegou a ser efectivamente representada e cantada por alunos do Conservatório Nacional de Lisboa no ano a seguir à edição do texto, que foi 1988. Uma vez mais o amor anda por aqui, um amor imenso, devastador, transformador dos elementos e das coisas:

“Cantor

(...)
Tu tens um país mas eu dou-te as distâncias
Terás o poder ou a minha ternura
No dia que traz as cegonhas do Sul
Se comigo quiseres partir à aventura.

Joana

Quando atravessámos o rio, pensavas que eu estava de regresso?

Cantor

Pensava.

Joana

Tu não sabes de nada, cantor. Eu não estava de regresso. Estava de partida.”

A qualidade do texto se calhar só poderia ser bem aferida ouvindo o espectáculo que realmente aconteceu, e não sei se haverá dele gravação. Fica a hipótese. Não deixa de ter as suas linhas com boa cozedura, quero eu dizer que é bem legível.

“Campos de Morangos Para Sempre” saiu na Rolim em 1987 e é um livro de crónicas, não sei se previamente aparecidas em algum lado. São textos curtos que funcionam como curtíssimas metragens, ou até instantâneos de momentos mágicos em algum sítio, e apercebemo-nos com CPC que também nós já estivémos lá. A expressão prosa poética foi para aqui inventada. Dizendo-me menos que "O Esquema" é provavelmente melhor. Alguns dos pequenos textos são sublimes:

“As Metralhadoras

Uma das saídas da rotunda leva à ponte, a outra à auto-estrada. Uma perde-se no meio dos eucaliptos e dá pela mata meia dúzia de voltas incertas com muitas encruzilhadas e destinos suburbanos nas pontas. A quarta corta a direito em direcção às bombas de gasolina, à volta estão blocos de chapa e de contraplacado encostados para formarem casas precárias, há muitos buracos, crianças nuas debaixo das camisolas sujas, e para diante regressam os prédios e as pracetas, mais bairros, mais urbanizações, até começarem a saltar couves e galinhas do meio do betão e todas as noções da ordem e da lógica se curvarem numa mesma indistinta turbulência, em lances de quatro ou cinco andares. Além destas há ainda na rotunda outras duas entradas, ms ninguém segue agora por elas porque levam a restaurantes ou a vagas áreas desportivas. Bicho de muitas penas, a rotunda pulsa, detém-se e acelera-se, comprime-se e alarga-se com a regularidade com que golfa o sangue nas artérias. Os automóveis chegam aqui e travam, depois seguem, e entretanto entreolham-se.

(...)”

“Gregoriano

(...)Para lá daquele canavial viveu-se uma vez um grande amor sem que ninguém soubesse, ao fundo daquele carreiro muito estreito veio uma vez um melro e arrancou os olhos aos filhos porque lhos tinham fechado dentro de uma gaiola. As cobras armavam traições aos calcanhares das mulheres, os rapazes deitavam-se de bruços na erva, dizem que os cães se juntam no meio da floresta, onde as árvores se encostam tanto que não deixam a luz chegar até ao chão, e então são ferozes como lobos, temíveis e esfomeados. Há ninhos, colmeias, passos sobre as folhas secas, ms tudo se rende ao nevoeiro que sobe. Ao fim da tarde, só os cumes mais altos ainda não se afogaram na cegueira branca das toalhas de nuvens. Nas aldeias da serra, dentro de cada uma das casas, agora podia acontecer tudo.”

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Agosto 23, 2009

Tonto, Muerto, Bastardo e Invisible.



Juan José Millás assume neste livro o papel de escritor "ciclone": levanta-nos do chão com os primeiros parágrafos - e um bigode - e só nos é permitido pousar na última palavra, perdão, na última palavra, letra, whatever.
Uma "trip" bestial, escandalosamente bem escrita, sempre a aguentar-se à tona de água apesar de toda a irrealidade/surrealidade - ou conjunto de alarvidades que se vão sucedendo. Tudo acontece: uns pais que morrem, arranja-se outros pais, uma viagem à ilha da Madeira, outra à Dinamarca, uma chinesa, papel de cozinha, uma bruxa, um amigo de escola que é chulo, muita socialdemocracia. Vocês sabem quem são os sociaisdemocratas na Espanha, não sabem?
Moral da história: não há como ficar desempregado, ou talvez não, ou tem cuidado, sei lá. Fosga-se!

"El peluquero cambió las tijeras con las que estaba trabajando mientras sonreía con malicia. Después se inclinó sobre mí con gesto confidencial.
-Su bigote lo hemos echo con el pelo de una bruja. Precisamente la tenemos hoy aquí. Ha venido a hacerse la cara y a depilarse las piernas. De paso, me ha echado las cartas porque vamos abrir una sucursal. Consérveme el secreto.
-Una bruja?
- Bueno, vidente o astróloga, no sé. Tuvo un programa en televisión, es muy famosa. Beatriz Samaritas. No ha oído hablar de ella?
-No.
-Tenía una melena que le llegaba a la cintura, más negra que el asfalto. Se la cortó para renovarse y nos la cedió. Hemos sacado tres pelucas.
-Y bigotes?
-Bigotes, sólo uno, el suyo. Dio la casualidad que usted lo encargó el mismo día que le cortamos la melena y aprovechamos los recortes. Bigotes nos encargan muy pocos, pero nos esmeramos."

"La ayudé a seleccionar los tesoros que contenía el cubo de la basura, que era de juguete tambiém, como las casas y las fuentes, y en ese instante supe que una vez que regresara al hotel para transferir al papel del Estado lo poco que quedaba de mi cuerpo, volvería con ella y viviríamos los dos sin cuerpo (el suyo seguramente continuaba en un burdel de Malasia), alimentándonos de los cubos de basura, después de todo quizá tampoco aquello fuera Dinamarca, sino un espejismo producido por las drogas que habíamos tomado los dos antes de entrar en el cuartucho donde quizá yo me la estaba follando por dos duros con la furia del que no ha sido nadie y baja de vez en cuando al barrio chino para obtener una dosis de realidad."

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Exploradores del Abismo


Eis uma paixão irregular, esta minha por Vila-Matas. Mais uma colecção de textos curtos, de valor nem sempre certo. Alguns deles valem pela ideia, o motto de arranque, sem mais. Sendo que o embrulhar releva... às vezes algum cansaço. Algumas páginas lembram Paul Auster, na medida em que existem vizinhos que são Deus, predições e contratos funambulescos, crianças do outro mundo. O abismo percorre então todos estes textos ou até bem antes a ânsia de sermos exploradores embora a arte de explorar se tenha perdido algures em Praga...
De ler especialmente o último texto, na realidade um ensaio sobre "La Gloria Solitaria", muito bem escrito. Pena não ser ficção.

"De niño vi a Miles Davis en Barcelona tocar la trompeta en el sagrado Palau de la Música Catalana, templo provinciano del jazz. Con su actuación se armó un gran escándalo. Aquel músico - dijo la gran mayoría de aficionados de Barcelona al jazz - le daba la espalda al úblico, les mostraba el culo y tocaba como si quisiera esconderse o hubiera sido asesinado por su propria trompeta."

ed. Anagrama, 2007.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Veneza


Este livro, de Jan Morris, é efectivamente "o" livro sobre Veneza. Exaustivo mas que nunca, nunca cansa. Divertido, carinhoso, crítico, explicativo, demonstrativo. Tem dezasseis anos em cima, mas só pode ser actual - pois a Veneza que nos é apresentada é intemporal e resiste, tenho a certeza, aos novos tempos. Não interessa dizer que Jan Morris primeiro foi James Morris, até uma operação ter acontecido. Interessa sim ser uma grande escritora de viagens e ser este um extraordinário livro sobre a cidade onde se sentiu estrangeira durante décadas.
Quando digo ser este livro exaustivo, eu explico: como é a recolha do lixo em Veneza? como são os casamentos em Veneza? como são os enterros? em Veneza há bicicletas? e muitos gatos mas não cavalos? como são as regras de trânsito... nos canais? onde se pode e não se pode estacionar o nosso barquinho? É um não acabar de detalhes, experiências, histórias e também relatos da grande História, de que Veneza foi protagonista durante séculos. Noiva do Adriático, anualmente o doge certificava esse noivado atirando um anel ao mar. Hoje um ponto de confluência, uma espécie de "buraco-negro" turístico mas que, apesar de toda a perda e melancolia ainda consegue ser muito mais do que isso.

"Até 1802 era costume haver lutas de touros e cães nas praças venezianas, em que se soltavam cães açulados contra touros presos por uma corda: eram de uma desorganização impressionante, a acreditar num quadro do século XVII, em que se representava toda a Praça de San Polo num estado caótico, com touros investindo em todas as direcções, cães a latir e algumas beldades mascaradas, vestidas com sedas virginais, caminhando por entre a confusão em pose majestosa, com uma serenidade desdenhosa. Havia cenas hilariantes de pugilato em público, versões refinadas das antigas vendetas entre facções que degeneravam em fabulosas batalhas campais: ainda se podem ver na Ponte dei Pugni (Ponte dos Punhos), ou então na ponte junto à igreja de Santa Fosca, as pegadas cimentadas no passeio que formavam a linha de fundo do jogo. Havia regatas magníficas, e competições de ginástica, e procissões religiosas, e até, em tempos mais antigos, justas de cavaleiros. Na Praça de S.Marcos, davam-se salvas cerimoniais até se ter descoberto que as vibrações estavam a fazer saltar os preciosos mosaicos da Basílica."

Ed. tinta-da-china, 2009 (tradução da ed. de 1993, sendo a 1ª ed. de 1960)

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

O Regresso


Não consegui evitar e fui ler o último livro de Bernard Schlink, e que versa áreas próximas a "O Leitor". Em "O Regresso" trata-se da busca de um (ante)passado que progressivamente vai ganhando contornos menos ou mais nítidos, nem sempre agradáveis. O passado alemão circula por todo o livro, também. E então, onde a diferença, visto que este romance já foi também adaptado ao cinema? No grau de humidade do texto. E com isto quero dizer que aqui falta a Schlink a secura, a concisão, a desidratação portanto de "O Leitor". "O Leitor" foi escrito como se o tivesse escrito um guarda-prisão que conhecesse a história. O romance de que falo tem mais deriva, mais meandro, mais jogo floral. O dobro do volume. Viajamos pelo mundo fora, há pessoas que se escondem e mudam de identidade, buscas de paternidades idealizadas, segredos inconfessáveis. Perigos futuros "para a humanidade". Uma boa história talvez, embora algo a soar a variação sobre um tema, e demasiado bem contada. À espera da adaptação para o cinema. Eu acho...

ed. ASA, 2008 (2006)

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Istambul: Memories and the City

"When the Pamuks move in 1953 from a communal Ottoman mansion to a modern apartment building, we see them work to understand what their increasingly Western way of life will bring, apart from freedom from Islamic law. Against the backdrop of ruined monuments, dilapidated villas, and teeming backstreets and waterways, we observe the cast of artists, journalists, and popular historians who would inform the city's evolving sense of itself. And we share with the daydreaming boy who would become this book's famous author the spectacle of dramas both public and private, the discovery of the great open-air theater that was and is Istanbul"

Pamuk é um turco mais que precisa de se explicar. Ser turco hoje em dia obriga aparentemente a uma explicação. Se calhar qualquer nacionalidade assumida também obrigará a essa mesma explicação, necessidade que por defeito a maior parte dos “nacionais” não sentirá. Pamuk sente. E exprime esta obrigação mais que em nenhum outro livro prévio neste que eu me dei ao difícil trabalho de ler em tradução inglesa, e que já existe em versão portuguesa. “Istanbul” é um extenso monólogo sobre uma cidade e o crescer de uma criança nela, até se fazer homem e se decidir pela escrita (spoiler…). Cidade onde se afundou um Império e se fundou um país “quase como do nada”, imediatamente por cima (ou por baixo) de um só homem – Mustapha Kemal, Ataturk. Pamuk relembra a velha cidade otomana poliglota e explica a actual cidade quase-ocidental, construída à pressa, educada para a civilização através de mil-e-um mandamentos, recomendações e preceitos. Havia um objectivo “colectivo”, uma espécie de “go west” emocional de determinada camada da população turca, devidamente enquadrada pelo exército, herdeiro do ímpeto fundador de Ataturk. Pamuk porém não esquece de delinear bem as várias camadas da sociedade turca, de Istambul, os bairros, as posses, as opções, as políticas. Define a melancolia da cidade o “huzun” como o rasto histórico vivido dentro de cada pessoa de uma cidade que já foi a Sublime Porta, a cabeça do Império, e agora é só mais uma cidade sumida entre megasubúrbios, às cavalitas entre dois continentes. E isto sobrevoa o crescimento de uma criança que é Orham, o 2º filho de uma família abastada mas em trajectória descendente através dos bairros de Istambul. Este longo livro circula através dos meandros da geografia espacial e temporal de Istambul… compreensivamente. Recomendo tempo, e a fruição de alguns capítulos pode ser interpolada, deixada até para depois. Este livro não pede pressas. Nele Pamuk consegue dois feitos: a explicação da sua génese como escritor, quase pueril, e a devolução a Istambul de A Grande Cidade, o umbigo do mundo, a linha de intersecção entre dois mundos que agora infelizmente cada vez mais se separam em vez de se unirem, e aí a tragédia do Bósforo, afinal a água que separa dois olhares hoje quae opostos.

"You can often tell whether you’re standing in the East or in the West, just by the way people refer to certain historical events. For Westerners, 29 May 1453 is the fall of Constantinople, while for Easterners, it’s the conquest of Istambul. Years later, when my wife was studying at Columbia University, she used the word “conquest” in an exam and her American professor accused her of “nationalism”. In fact, she’d used the word only because of having been taught to use it as a Turkish lycée student; because her mother was of Russian extraction, it could be said that her sympathies were more with the Ortodox Christians. Or perhaps she saw it as neither as a “fall” or a “conquest” and felt more like an unlucky hostage caught between two worlds that offered no choice but to be Muslim or Christian.
(…)
It was, however, three years later that the Turkish state deliberately provoked what you might call ‘conquest fever’ by allowing mobs to rampage through the city, plundering the property of greeks and other minorities. A number of churches were destroyed during the riots, and a number of priests were murdered, so there are many echoes of the cruelties Western historians describe in accouns of the ‘fall’ of Constaninople. In fact, both the Turkysh and the Greek states have been guilty of treating their respective minorities as hostages of geopolitics, and that is why more Greeks hve left Istanbul over the past fifty years than in the fifty years following 1453."

PS.: o livro (nesta edição, espero que nas outras também) tem uma mais-valia enorme nas dezenas de fotografias que o acompanham, uma pequena parte sobre o jovem Pamuk e a sua família, o resto sobre o Istambul antigo - todo um catálogo a não perder.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

El Lector


El Lector (ed. Anagrama) é um best-seller publicado em 1995 por um escritor alemão, Bernhard Schlink, antes apenas medianamente conhecido como autor de policiais, e que no ano passado foi adaptado por Hollywood – sucursal UK – ao cinema, enchendo Kate Winslet de prémios.
Sintomaticamente, nos 11 anos que se seguiram apareceram dele apenas mais um livro de contos e final e recentemente um novo romance (mixed reviews, etc., etc.).
El Lector é o que antigamente se chamaria uma novela – pouco passa as duzentas páginas. Mas a escrita seca, enxuta, só poética a espaços de Schlink resume uma grande história para estes números, pois que esta consegue disseminar-se por três tempos, separados por anos e décadas, e efectivamente em poucas páginas aqui e ali imensas coisas acontecem. As considerações são concisas, justas, como se decididas há muito, e reduzidas ao osso. Algo de autobiográfico neste livro pode também explicar o seu escrever.
Portanto, é assim: estamos em Heidelberg, no pós-guerra, e um rapaz de 15 anos, Michael, tem uma curiosíssima relação com uma mulher de 36, Hanna, revisora de tranvia. Uma relação que é sobretudo sexual mas que ganha progressivamente uma intensidade e características invulgares, de ambas as partes. Os encontros, com poucas excepções, decorrem assim: ele chega, eles tomam banho, ele lê-lhe um livro, eles fazem amor. Esta sequência é um achado, mas um achado só não faz grande literatura. Há porém detalhes na construção do texto que progressivamente nos levam para o lado de lá. Tudo porém tem um fim e esta história de iniciação sexual redonda em declives e abismos também: sem se perceber bem porquê a revisora um dia desaparece. Para anos depois o agora estudante de direito descobrir que Hanna fora guarda prisional num campo de concentração e participara não só no crime diário do campo em si mas num crime ainda mais hediondo, móbil central do julgamento em que Michael casualmente reencontra Hanna. Esta acaba por ser declarada a culpada principal e condenada à prisão perpétua. O seu comportamento durante o julgamento é também não o mais normal. Hanna tinha um segredo: não sabia ler nem escrever. Michael descobre o segredo por pura dedução durante o julgamento mas nada faz para avisar o juiz da atenuante.
Este livro – como todos os best-sellers e ainda mais quando transformados em filme de sucesso – foi criticado por muitas coisas, e uma delas por situar numa analfabeta o enigma da possibilidade de um ser humano – e Hanna é muito humana, o livro é mais de duzentas páginas a demonstrá-lo – ter cometido diariamente e com paroxismos de agravamento coisas monstruosas. Uma alemã, um povo dito "de letrados". A iliteracia de Hanna é aqui apenas um fait-divers, um achado-debaixo-do-achado: “quero que me leias, rapaz!”. Mas é também um sarcasmo sobre a famosa interrogação de “como o nazismo pode ter acontecido numa nação tão culta como a alemã”. Não existem nações cultas. Nunca existiram, nunca existirão. Os gestos e procedimentos de Hanna e das suas companheiras de homicídio em massa são perfeitamente críveis, e aceita-se que as outras guardas tivessem mais educação, pelo menos alguma mais. Não é pela “improvável” iliteracia que Hanna sai de ser uma mulher alemã vulgar. O algo “a mais” que ela demonstra é fruto de complexo processo de sucessivo enredo de uma vida onde o fio condutor é que nunca ninguém descubra o seu defeito, o seu não saber. Em Alemanha já então uma vergonha, por ex. em Portugal facilmente confessável ainda hoje.
Em cima disto, a qualidade da relação Hanna-Michael, 1ª parte, fica sem definição, nem o autor se dá a esse trabalho. Retiremos a palavra futuro de cima da mesa. Coloquemos a palavra “felicidade”. Hanna foi feliz, num enclave espaço-tempo tão improvável, enquanto Michael crescia. Quem tem filhos pequenos pode acalmar – é apenas um livro.
Ao fim de muitos anos de deriva, Michael reencontra em si a ideia obssessiva de Hanna e, descobrindo a prisão onde se encontra, começa a mandar-lhe cassettes com textos que ele lhe lê, outra vez, em voz alta. E durante anos resume-se a isto o retomar desta relação. Um dia Hanna escreve-lhe um bilhete: sinal de que aprendera a ler. Peço não se ache este momento uma incursão no universo TV Globo. E acrescento que não vou contar mais a partir daqui. Há uma desilusão e há um final lógico.
Pode não ser um grande livro, aceito que uma boa história é sempre por defeito aquela coisa que todos nós “afinal-preferimos”… e que os prémios todos que o livro recebeu na Alemanha natal terão sido uma espécie de exorcismo, de alívio, sei lá. Uma história de amor com uma guarda prisional que manda prisioneiras para Auschwitz, vejam só!
Mas este livro tem que ser lido – aliás é matéria de estudo no secundário da Alemanha, suponho que na Áustria não.
Percebe-se a escola policial do autor - veja-se a evolução da higiene do personagem Hanna com mais um sinal de - e o seu conhecimento dos ambientes judiciais.
Terei que outras coisa deste autor - para sair do da coisa do "one hit wonder...ou nem isso".

"Tuve la impresión de que era la última vez que nos sentábamos todos juntos a la gran mesa redonda, bajo la gran lámpara de latón de cinco brazos y cinco bombillas, que era la última vez que comíamos en los viejos platos decorados con zarcillos verdes en el borde, que era la última vez que hablábamos con tanta familiaridad. Me pareció estar viviendo una despedida. Todavía estaba allí, pero ya me había ido. Añoraba a mi madre, a mi padre y a mis hemanos, y al mismo tiempo anhelaba a una mujer.
Mi padre me miró.
-Dices que quieres volver mañana mismo al instituto, verdad?
-Sí.
Vi que se había dado cuenta de que me había dirigido a él y no a mi madre, y también de que yo no estaba dispuesto a reconsiderar mi decisión.
Asintió con la cabeza.
-Pues si quieres, adelante. Y si ves que no puedes, te quedas en cas otra vez.
Me sntí feliz. Y al mismo tiempo tuve la sensación de que en ese momento la despedida
ya se había producido."

PS.: o título original “Die Vorleser” é alemão para ler alto, em voz alta…

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Março 22, 2009

Jerusalém


O facto de ter feito a piadinha da praxe sobre o escritor-de-quem-se-fala, Gonçalo M. Tavares, em texto pretérito que cursava sobre Vila-Matas obrigou-me, de alguma forma, a ler o mesmo. Já o tinha feito – comprei um livro seu de poesia, chamado sintomaticamente “Um”. Enfim, maus poetas podem ser grandes prosadores, pensei.
E agora vamos a “Jerusalém”. Livro de 2004, inserido numa série de “Livros Negros” do autor. Não vou reincidir comentando a prolixidade deste homem, que publica como que meia dúzia de títulos ao ano.
E o livro até começa mais ou menos bem. Os personagens circulam entre uma cidade – qualquer – e um hospício. Há loucos, guardiães de loucos, médicos (assumimos que psiquiatras), e outros figurantes – uma prostituta, por ex. Uma circulação de encontros e desencontros, crueldades e desesperos vai sendo desenhada ao longo de pequenos capítulos intitulados segundo o nome dos figurantes.
O livro termina como começou, uma mulher, talvez-não-tão-louca, tenta entrar numa igreja. Será esta a razão do título, ou então a citação bíblica: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita”. Para que (talvez...) a porta lhe seja aberta, ela terá que matar por interposta pessoa.
A estreiteza dos capítulos não é o único artifício de que este livro se socorre. Já referi a secura do discurso. Acontece que este mesmo discurso é pontuado por uns quantos itálicos para facilitar a compreensão da coisa. Que não é até nada difícil, pese embora os saltos temporais que vão acontecendo. O germânico dos nomes é outro estratagema, mais um intermezzo de pequenos textos chamados “Europa 02”, reminiscências de torturas a la mitteleuropa, geografia de textos a rimar com os nomes, et voilà.
Diz o autor: “Considero que estes três romances, «Um Homem: Klaus Klump», «A Máquina de Joseph Walser», [os dois “livros negros” anteriores...] e agora o «Jerusalém» são livros emocionais e portanto que incluem o leitor no seu mundo. Não há nada de abstracto em «Jerusalém», a violência entre pessoas e os laços amorosos e familiares existem em todo o lado. Estamos todos no mesmo barco: temos medo e se necessário somos agressivos.” E também: “A prostituta, o médico, quase todas as personagens são como nós. A mesma extraordinária porcaria saudável.”, ou que: “...não há nenhum lugar estrangeiro ao medo, à agressividade, à loucura, à ligação entre pais e filhos. Pertencemos todos ao mesmo país.” Percebe-se que portanto este livro pretende retratar-nos. Se o referente é germânico, podemos assumir existir como que uma espécie de expressionismo neste retrato. O problema é eu não me sentir retratado. Este expressionismo minimalista, pelo decoro do discurso, é afinal o escrever habitual deste escritor, sendo que por outros folheares se expressa assim "todos os dias" (por escrito) há muitos anos. A ideia é ficarmos impressionados. Eu digo: a ideia seria ficarmos encantados. Não foi o caso. Vejamos:

“ Janika é negra e gosta de fazer comida.
Gosto de fazer comida, diz Janika.
Mete tudo o que encontra para uma panela. Pedras, ervas, beatas de cigarro, pequenos papéis.
Não se pode desperdiçar, diz.
Janika tem cinquenta anos.
Passei fome, diz Janika, não se pode desperdiçar.
Alguns homens atiram os cigarros e as beatas directamente para o tacho que Janika leva.
Passei fome, gosto de fazer comida, diz Janika.”

Ok. E também...

“Mylia regressou, passado uma semana, para aquela que seria a sua primeira operação. Depois dessa seguiram-se outras três, ao longo de vários anos. Até que a certa altura o médico, após a análise do desenvolvimento da doença, lhe comunicou que nada havia a fazer: no máximo ela viveria dois anos. Mais do que isto seria um milagre. Nas suas palavras, seria um acontecimento espiritual e não terapêutico.
Mylia de imediato recordou as teorias de Theodor Busbeck, o ex-marido. Reconheceu-as na boca desse médico: o espírito, a procura de Deus. Aterceira parte da saúde. Quando a matéria falha.”

O pathos não passa, o reconhecimento não acontece, o transporte até onde as coisas são não há. A referência kafkiana é óbvia mas é pobre e precisa destas mais-valias dos nomes germânicos, da loucura-a-cada-esquina, etc., para ir sobrevivendo.

“O papel das mulheres e dos homens era evidente na família Busbeck: os homens conseguem uma coisa e as mulheres mantêm-na. Eram como que duas partes do mesmo exército: os homens iam à frente e ganhavam notoriedade e às mulheres estava entergue a função, extremamente difícil e delicada, de manter o alto nível das conquistas, ou seja: a cargo delas estava a manutenção da higiene da notoriedade, expressão que ganhara na família Busbeck uma consistência orgulhosa. Nenhuma mulher da família se envergonharia de dizer em voz alta: eu mantenho limpa a notoriedade do meu marido. Pelo contrário, tal frase - a ser verdadeira - expressaria, muito simplesmente, o sucesso de uma existência."

Ah, e...? E é assim por todo o livro. O livro "é negro" e tem uma capa... negra. Oh, brother!

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Março 08, 2009

Mundos de Fronteira


Ilse Pollack, austríaca, escreveu já há uns bons anos uma série de ensaios sobre alguns escritores da Europa Central, uns muito conhecidos – ex. Kafka – outros nem por isso. São estes textos, reunidos sob o nome de "Mundos de Fronteira" que nos aparecem em edição da Cotovia. Pollack já viveu e ensinou em Portugal, até já escreveu sobre nós, curiosamente agora escreve mais sobre literatura africana de expressão portuguesa, se calhar uma boa escolha.
Voltando aos textos em questão, todos estes escritores têm em comum terem vivido na área gheográfica do defunto Império Austro-Húngaro e terem migrado entre nacionalidades, povos e línguas. Servem estas reflexões para rever/moderar o mito do Império multicultural, servem para mostrar por ex. o quanto a intelectualidade judaica leste e centroeuropeia olhava para o alemão como o mar para onde deviam desaguar todos os rios – foram quase todos gaseados anos depois… etc., etc. Ensaios com uma profunda melancolia subjacente e um olhar duro sobre as cidades – Praga, Viena, Trieste – onde esta esquizofrenia melhor se exprimiu - ou o difícil e segregado convívio dos povos nos campos e na província.
Vejamos os seguintes extratos:

Sobre Kafka:
"(...) Os livros de Kafka foram - e continuam a ser - lidos como profecias. E no entanto não há neles nada de profético. Se partirmos do princípio de que as experiências dos seus protagonistas são pura e simplesmente descrições da sua própria existência, temos logo de salientar que essa existência foi a de um judeu. É verdade que a palavra "judeu" nunca aparece nos livros de Kafka - e no entanto o destino judaico, de forma ao mesmo tempo muito sintomática, tem um significado decisivo na sua obra. (...)"

Sobre Milo Dor (escritor austríaco de ascendência sérvia, nascido em Budapest):
"(...) e os cafés, "lugares de uma comunicação intelectual", cujos proprietários, quase todos judeus, desapareceram para sempre, dizimados nos campos de concentração do Terceiro Reich. E como foram os judeus que assumiram esse papel mediador entre o centro e a periferia, sem o qual não haveria cultura da Mitteleuropa, toda e qualquer tentativa de ressuscitar esse conceito no final do nosso século só pode ser, segundo Dor, connversa fiada. E o mesmo se passa com o segundo pressuposto, o do "uso da língua alemã como meio de comunicação geralmente reconhecido" nos chamados "países que se formaram depois" (Nachtfolgeländer), coisa que não existe. "Quando (hoje) um jovem checo se quer entender com um húngaro ou um esloveno, fá-lo em inglês.""

"Num dos seus mais belos textoa autobiográficos, (...) Milo Dor diagnostica: "Dependendo dos factos do passado dos meus avós que eu escolha como estrelas fixas para minha orientação, tanto posso ser um sérvio às direitas como um austríaco às direitas. Mas não sou nem uma coisa nem outra. É essa a minha doença." (...) "Para mim, as fronteiras são matéria gelatinosa. Não sei o que fazer com os povos (...). Só gosto de indivíduos que duvidam, que tentam pensar. Quando os deixam pensar. Só amo sem reservas os povos extintos"."

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Otros Colores


Quando Orhan Pamuk recebeu o Prémio Nobel ganhou uma notoriedade adicional à que já possuía, e que já era alguma. Essa maior notoriedade não tem desaparecido, em grande parte pela animosidade que o escritor mantém com parte da sociedade turca e com o próprio governo turco, dito “islâmico moderado”.
Li recentemente o livro “Otros Colores” , uma coleção de textos deste escritor de diversas proveniências e com diversas intenções. É o 1º livro saído após o Nobel. Temos diário, crítica e reflexão literária, replexão política sobre a Turquia e sobretudo as suas relações com o Ocidente, e finalmente alguma ficção, com o relato curto final que será talvez das páginas mais íntimas que Pamuk escreveu – é ler para perceber. Em Pamuk encontramos uma síntese das contradições que enquistam a relação da Turquia com a Europa e o Oriente.

"(...) Cuando tenía siete años fui a Ginebra, donde mi padre trabajaba como ingeniero, y passé alli un verano. La primera vez que oí el sonido de campanas desde nuestra casa (por entre los tejados se veía lo más alto del famoso surtidor), senti que había topado no con Europa, sino con la Cristiandad. (...)"

Uma relação que não é linear nem directa. Um bom exemplo aparece-nos quando Pamuk descreve a sua relação com o clássico “As Mil e Uma Noites”, um texto que em tempos lhe chegou a parecer “demasiado oriental”…

"(...) Aquel mundo repleto de hombres asustados y mujeres en las que no se podía confiar, me resultó demasiado asfixiante y "oriental" y un poco simplón a mis veinte años. Por aquel entonces sentía que Las Mil y Una Noches estaba excesivamente sumida en la sensibilidad y los gustos de los barrios marginales. En la mayor parte de los cuentos, la maldad, la hipocresía y la vulgaridad no estaban representadas com algo feo en lo que el ser humano cae, o a lo que otros le impulsan, sino que se nos mostraban una y otra vez en sus aspectos más chocantes y repugnantes únicamente por el mero placer de la historia. (...)"

Ilustrativas são também as considerações sobre a Turquia “na” e “no seu caminho para a" Europa… ou as páginas emocionadas sobre o grande terramoto de 1999.
Finalmente, se não fosse por outra coisa, este livro valia pelo capítulo final, um conto onde Pamuk “quase-não-ficciona” a sua vida familiar de criança, a difícil relação com o seu irmão, a flutuante relação de seus pais.

" (...)
Jugamos a muerte largo rato. Yo me creía Lefter, el del Fenerbahçe, y regateava como él. Al intentar bloquearlo le di varias veces a mi hermano en el brazo donde lo habían vacunado. El también me dio a mí, pero no pasó nada. Estábamos sudando, la pelota se estaba deshaciendo, pero yo hiba ganando cinco a tres cuando le di muy fuerte en el brazo de la vacuna. Se tiró al suelo y empezó a llorar.
- Cuando tenga mejor el brazo te mataré - me dijo desde el suelo.
Estaba enfadado porque había perdido. Pasé del pasillo al salón; mi abuela, mi madre y mi tío estaban en el despacho. La abuel marcaba un número de teléfono.
- Oiga? Dígame, hija, es el aeropuero de Yesilköy? - la llamaba "hija" com el mismo tono con que se lo decía a mi madre - Mire, hija, queríamos preguntar por alguien que iba a tomar hoy un avión a Europa - (...)"

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

A Cidade de Cobre

O enigma continua: o que faz correr Gil de Carvalho. Publicou em 2001 nas Ed. Cotovia uns textos cuja nota final eu vou começar por citar: "Estas prosas - a que chamei relatos - são uma miscelânea. Parecem-me quase todos eles estranhos, ou alheios, à introspecção. Contam uma história. Dão (ou notam) factos, um acto (ou aconteceres), criam passagens: reais, simbólicas, ou ambas. A língua é por vezes estranha, quando não heterodoxa ou mesmo errada. Não me pareceu curial mudá-la...(...) Diria, restos felizes. (...)". Restos felizes. Oitenta e três restos felizes, textos de duas, três, quatro páginas. Estranheza variável mas que é a regra, não excepção. Na prática como poemas longos, extensão do calmo tremor de terra que é a sua poesia, parece-me. Títulos? "Cedo para as Duas", "O Dito de Valpaços", ou "Uma Fotografia Copta do Museu do Cairo". O melhor? "A Noção de Tempo Segundo Alguma Arquitectura e Certas Figuras Existentes nos Templos Indianos". Deste, por ex. retiro:

"(...)Digo que ensinavam o presente mas talvez fosse outra coisa, mais adiante. Praticamente nunca lhes toquei. É preciso ver que em determinadas partes da Ásia há penetração mal haja um pequeno toque. É o tempo, segundo, já se sabe. Hoje estão casadas - e bem. Percebo quando sou convidado lá para casa (parecem-me felizes: o chão, sagrado, a parentela, excessiva, um garante) que estão completamente preenchidas: sunya, creio ser a designação técnica. (...)"

A ginástica destes textos é às vezes complexa, as posições de difícil aquisição, como se texto sobre texto sub texto. Porque? Gil de Carvalho não corre, acho. Aliás não tem publicado tanto assim. Escreve labirinticamente. Um exercício portanto; um enorme prazer.

"(...)A distribuir, fazer e comer pizzas: Ísis, Osíris, Ptah. Descansem em paz os ladrilhos novos, aos poucos, safados. Elas com as pernas bem rapadas, pintadas como um friso do Egipto.
Dizer que era um dom do rio, ou do Nilo.
- A gaja não'tá boa.
O piloto na ponte levadiça berrou:
- Larga!
E eu larguei."

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

Dietario Voluble


Enrique Vila-Matas é um escritor de quem se fala. Surgiu agora em Ed. Anagrama uma espécie de diário literário dos últimos três anos da vida deste escritor, que em Portugal temos conhecido em edição da Ass.&Alvim. Mas não é só um diário literário porque a rotina deste escritor é feita de livros, escritores, conferências, visitas de, a, com escritores vivos-ou-mortos, un so weiter. Difícil não achar que de vez em quando parte deste diário tem um interesse circular... relativo. E relativo digo pois ao ser relativo ao autor cujos passos traduz, será esse envio que lhe poderá sempre assegurar o mérito, alimento para os leitores devotos de e desejosos de uma proximidade adicional em relação ao ser idolatrado.
Pergunta: "é pá, não gostaste - estás a malhar no gajo!" Não é bem isso, eu encontrei-me a bem-contra-vontade subscrever textos, boutades, opiniões, achados. Tanto que até desconfiei e me levou a considerar que afinal muito raciocínio aqui deliberado não seria afinal tão original para publicação - pois se até poderia ter sido meu! Eu sofri esta identificação. Por outro lado, há um coleccionismo quase exasperante - com excepções pontuais - de um conjunto de escritores que poderiamos chamar de "los olvidados", uns que serão talvez imagens em espelho para serventia do escritor "que cita" (e daí também um longo elogio da citação, subscrito a meias com Savater a cause de...). Dirão que o defeito é meu porque sou "el ignorante"... De Portugal aparece Pessoa e Gonçalo M. Tavares, este o famoso rapaz que escreve uma média de três livros ao ano para assim nunca falhar ao menos um premiozito - anual...
Portanto, este livro enervou-me. Colocou-me demasiado perto de Enrique Vila-Matas, e não me parece que nenhum dos dois tenha ganho nada com isso. Os textos variam entre o bastante interessante e a banalidade, sendo que metade das páginas são envios a, como já dito. E, por ex....


"Nada me parece más plúmbeo como los domingos y como las despedidas de fin de año. Tienen la mala sombra de recordarnos el paso inexorable de los días a pesar de que el Tiempo no sabe que pasa el tiempo. En los domingos, por ejemplo, hasta respirar se convierte en un lamento. Y es que en los domingos uno siente que han dejado de existir las relaciones entre las personas y las actividades de cualquier tipo. En los domingos padecemos el tiempo y es como si todos contuviéramos el aliento y probáramos a ver cómo será el más allá. Los domingos son una enfermedad no visible, como un mal interior, una enfermedad moral. Los domingos son espantosos. Pero aún hay algo peor: las celebraciones de fin de año. Nos recuerdan, al igual que los domingos, que ha pasado una semana más, en este caso, un año. Nos recuerdan el paso del tiempo y, encima, tenemos que festejarlo."

"Más tarde, en el escenario del Parioli, el señor Alfonso Pecoraro Scanio, ministro italiano de Medio Ambiente, me susurra al oído algo sobre un oso italiano y, com es lógico, no entiendo nada y, además, me quedo aterrado por no comprenderlo, y solo comienzo a entender de qué me ha hablado quando, dos horas más tarde, en la cena, me explican que el ministro ha quedado seriamente afectado porque, la semana pasada, abatieron un oso italiano en tierras eslovenas.
Me parece simplesmente raro - o de un sofisticado y extremado nacionalismo - que alguién pueda creer que hay osos italianos, y me acuerdo de Il Conformista de Bertolucci, donde una señora que da de comer a unos pájaros en un parque romano les habla a éstos en italiano, sin duda porque cree que hablan en su idioma."

"Comenzar es muy fácil. Pero lo malo viene después, cuando hay que seguir dando la talla. Al principio, uno comienza, llega, busca la protección de un grupo generacional y se come el mundo. Lo difícil viene después, cuando hay que seguir comiéndose el mundo. Lo más difícil es mantenerse, y ya no digamos acabar. Ödön Von Horváth solía decir: "La mayor alegría del mundo es comenzar." Pero no passará a la historia por eso, sino precisamente por su manera de acabar. Murió fulminado por un rayo en plenos Champs Elysées de París. Von Horváth fue un caso raro como escritor, porque supo comenzar y acabar."

"Aunque mañana romperé con el radical aislamiento. Voy al Registro Civil (expediente 4589/06) a firmar unos papeles. Sí, mañana, 10 de Abril, me caso."

Está percebido?

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Janeiro 11, 2009

Se numa Noite de Inverno um Viajante


Como se de uma prova de obstáculos se tratasse acabei o meu primeiro romance de Italo Calvino, e a dificuldade acabou por ser proporcional ao prazer obtido. “Se numa Noite de Inverno um Viajante”, romance de 1979. Romance ou melhor romances e são dez os romances começados, cortados ou espreitados ao longo destas páginas, entremeados pelo percurso simultaneamente apaixonado e angustiado do Leitor pelo "não-romance" de título acima, leitor figura primordial deste livro, figura cujo auge é atingido perto do fim num múltiplo desdobramento, todos os romances possíveis, os leitores, as leituras, e também as censuras, as escritas, etc. são aqui apresentadas, tentadas ou mencionadas. Leitor em obsessivo contraponto com uma Leitora de curioso nome Ludmilla, outro mundo, outra história. "Leitora, agora és lida."
Fugas, disfarce e mistificação. Livros dentro de um Livro, como “naquele” cinema difícil que já não se faz. Mas a dificuldade aqui é nenhuma. E dez vezes nos entusiasmamos e dez vezes o fluxo pára, o texto interrompe-se e somos este livro no seu passeio pelos meandros do deleite da escrita, do pensamento e da paixão sobre a mesma e das histórias possíveis e impossíveis que sempre se poderão inventar.
“Seja como for, é um romance que, uma vez começado, apetece continue sem parar” (dez vezes…). E que, também, termina de uma forma brilhante – e óbvia.
"É claro que a posição ideal para ler nunca se consegue arranjar."

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quaresma, Decifrador - As Novelas Policiárias


“"O que temos, portanto, são fragmentos, o que não é propriamente novidade em Pessoa. Umas vezes temos o crime e não temos a solução, outras vezes temos a solução e não temos o crime, outras vezes temos apenas o raciocínio de Quaresma, que é sempre muito caprichado por Pessoa, outras o contexto, por vezes capítulos desgarrados, etc. Se em algumas novelas há pelo menos um núcleo que é reconstituível como narrativa, outras há em que o carácter fragmentário não deixa entrever o texto como ele deveria acabar por ser", indicou.
A segunda dificuldade com que se deparou foi que "o enredo da maior parte das novelas que o têm é razoavelmente simples, mesmo cândido, e um pouco datado".
"São novelas - classificou - de uma sociedade pacata, provinciana, cândida e de uma polícia primitiva, muito longe da sofisticação actual. Isso não retira qualquer interesse à novela, que segue algumas das regras da `detective story` da Idade de Ouro do policial inglês que Pessoa muito admira, sendo aliás membro do Albatross Book Club e lendo todo o género de policiais".
"Em termos de adaptação e de argumento, portanto, temos primeiro um défice de enredo (que muitas vezes se reduz ao enigma), depois um défice de acção propriamente dita e por fim uma grande economia de personagens - Quaresma, o Chefe Manuel Guedes, da Investigação Criminal, mais conhecido por `Guedes Bruto`, a vítima, que não conta muito, porque em princípio está morta, e um par de suspeitos -- o que, em termos de orçamento, é bom", observou, provocando o riso na audiência.
Para Luísa Costa Gomes, o grande interesse da série "Quaresma, Decifrador" "é o Abílio Fernandes Quaresma propriamente dito", embora não tenha "nada, à partida, de motivador, nem de simpático, como personagem".
"É - descreveu - um homem humilde, envelhecido, magro, doente, alcoólico, fumador inveterado, leitor de charadas e enigmas do `Almanach de Lembranças`. Vive modestamente na Rua dos Fanqueiros, com uma manta pelos ombros, numa desarrumação de livros e almanaques. Não tem propriamente vida social, excepto quando o Chefe Guedes, o Sancho Pança deste Quixote apagado e cinzento, lhe aparece com o dom de um mistério".
"Mas -- sublinhou - dizer que é o Sherlock Holmes da Rua dos Fanqueiros é errar o ponto e a dimensão do personagem. Há qualquer coisa de essencialmente lisboeta no Quaresma que o subtrai a esse tipo de comparações. É, como Pessoa, um asceta e um bibliómano. Como Pessoa, um intelectual isolado na cafraria cultural portuguesa. Um cérebro gigantesco aprisionado numa circunstância menor".”

Eis um longo texto retirado do site da RTP. Trata-se de notícia recente – Novembro do ano que passou – e são declarações de Luisa Costa Gomes, uma das figuras mais interessantes e consistentes da nossa “vida cultural” do torna-século. Vai ela adaptar as/estas “novelas policiárias” de Fernando Pessoa para a RTP, 13 episódios. Admiro-lhe a coragem, pelas dificuldades acima enunciadas, e porque a televisão portuguesa é mestre em afogar qualquer tentativa de fazer um audiovisual de qualidade sobre o que quer que seja. A esparrela está à vista, oxalá eu me engane. Quando os grande êxitos de produção da RTP são o “Conta-me Como Foi” – remake sem grande desvio do produto espanhol – e o “Liberdade XXI” – cuja vertigem dos movimentos da câmara me provoca cefaleias ao fim de trinta segundos.
Bom, e o “Quaresma, Decifrador”? Edição mais uma da Assírio & Alvim, é um conjunto de relatos na linha do policial inglês do virar dos séculos XIX-XX onde Pessoa aproveita, através da mais uma invenção de um personagem curioso e genial, para se alargar nas suas considerações sobre o raciocínio, os sentimentos, a loucura, as pulsões, etc., em páginas de desigual qualidade mas que aqui e ali se lêem bem. De vez em quando aparecem também alguns bons diálogos e algumas boas situações criadas. Saltitando é um volume que vale a pena e também pelos lampejos do génio que vão aparecendo. Deixo exemplos:



“”O génio, o louco e o criminoso são três casos de inadaptação. No génio a inadaptação é intelectual: é um homem que não pensa, nem pode pensar como os outros. No louco a inadaptação é emotiva: é um homem que não sente, nem pode sentir, como os outros. No criminoso a inadaptação é da vontade: é um homem que não quer, nem pode querer, como os outros.””

in O Caso Vargas



“-Porquê, doutor? perguntou o Guedes.
-Porquê, o quê? interrogou o dr. Quaresma.
-Porque é que, quanto mais estranho é um facto, menor é o número de hipóteses para o explicar?
-Porque o estranho é o invulgar, e há evidentemente menos causas para o invulgar do que para o vulgar. Se amanhã aparecer morto numa rua de Lisboa um homem que assassinaram com uma facada, você, só pela facada (não me refiro agora à identidade do homem e das conclusões que se possam tirar dela) não poderá concluir muito quanto à natureza do criminoso. Se esse homem tiver sido morto por uma punhalada de um punhal delgado, restringe-se forçosamente o número de criminosos possíveis. Se tiver sido morto por uma seta, poderá haver dificuldade material em acertar com o criminoso, mas haverá facilidade em desde logo eliminar um grande número de criminosos. Você compreende, não é verdade?”

in A Carta Mágica



“-Dizia-me um coisa, faz favor, disse Quaresma. Era o sr. que estava de serviço naquela noute em que houve um crime ali defronte.
-Era, sim senhor, respondeu o polícia, parando.
-Eu fui consultado sobre o crime por um amigo meu da polícia de investigação. Sou médico, mas dedico-me a decifrar charadas, e isto é uma charada. Vim aqui, e ia fazer uma pergunta a uma pessoa ali do prédio fronteiro – e indicou-o – mas acho melhor não fazer a pergunta, para não levantar nenhuma espécie de suspeitas. Por isso queria, antes de mais nada, perguntar-lhe a si umas cousas…
-Se eu souber, sr. doutor…
-Vamos andando, disse Quaresma. E os dois seguiram, no passo do guarda, pela avenida acima.
-Eu ouvi a narrativa dos pormenores do crime, com todos os detalhes. Ouvi, e resolvi o problema logo, porque é extremamente simples. O que eu lhe queria perguntar era isto, e indicou com um dedo o lugar já passado da casa do Branco, “Quem é que ele seduziu – foi sua irmã, sua namorada, ou que é que foi?”
Andaram automaticamente quatro passos sem falar. Ao quinto passo, o polícia respondeu numa voz firme e incolor:
-Foi minha irmã.
Andaram mais dois passos.
-E foi por isso que o matou? perguntou Quaresma.
(…)
-Deduzi bem?
-Perfeitamente, sr. dr. E o que é V.ª Ex.ª tenciona fazer?
-Tomar o carro para a Baixa no lugar mais próximo. É a única coisa que tenho a fazer.
- Agradeço a V.ª Ex.ª. Não tenho medo nem da morte nem de nada, mas queria viver, e viver livre, se pudesse ser. Não podendo…
-Cá por mim não há dúvidas, respondeu Quaresma. Resolvi o problema, estou satisfeito. Está tudo acabado. Mas onde é que se apanham aqui carros para a Baixa? Estou um bocado cansado.”

in A Morte de D.João

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

O Quinto Filho


Doris Lessing ganhou em 2007 o Nobel, mas a sua consagração já vinha de antes.
A novela "O Quinto Filho", publicada originalmente em 1988 é um livro de terrível eficácia. O casal mais feliz jamais descrito tem 4 filhos, e depois tem o 5º. Só que este não se parece em nada com os anteriores, e a sua anormalidade põe à prova toda a construção prévia de uma "imensa" felicidade.
Lessing não se preocupa em dar um nome à doença deste 5º filho, pois não é o caso, e este livro vê-se concebido anteriormente a esta nossa preocupação de dar nomes científicos a todo e qualquer desvio. Não, aqui a questão põe-se antes, antes da doença, antes de nascer, antes até da humanidade sequer ter sido concebida - e pensada para ter filhos - bastantes - e viver muito feliz.
É um livro curto, arrepiante, e que "não acaba", como assim o terror que existe.
"Ela limpava tudo e pensava: não vai ser por muito tempo".
Doris Lessing, atenta, escreveu uma sequel publicada em 2000...
Great book!

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Sexta-feira, Novembro 21, 2008

As Dioptrias de Elisa


"Elisa não podia casar. As dioptrias de Elisa eram muito grandes."
António Gancho foi dado a conhecer ao grande público através de alguns poemas publicados por Herberto Helder numa colectânea por si organizada para a Assirio e Alvim. Recolhido num asilo para loucos, este conto "sensual" comentado e ilustrado por Álvaro Lapa, companheiro de tertúlias primevas, fica para a história. E porquê? Precisamos afinal de um doido para colocar o sexo onde ele está, entre a mobilidade animal de uns corpos e a rapidez atenta de seus fluidos. O mais é poesia, que António Gancho também praticou mas noutro capítulo. A isto chama-se clarividência.

"Filipe levanta-se de cima dela e andava nu um bocado no quarto ao que ela se estarrecia de lúbrica e sensual. Elisa ainda estava nua. Ainda não se podia vestir, agora já se vestia."

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

Março, os Remadores no Douro e Funchal em Fundo


De vez em quando vale a pena voltar à poesia de João Miguel Fernandes Jorge. Sairam estas duas pequenas colectâneas, mais ou menos temáticas vendo os títulos enunciados, na colecção "Pequeno Formato" da ASA, em 2002.
Poemas maiores, mais pequenos, páginas de texto voguando entre o descritivo e a ficção, recolha de volumes pretéritos mais um inédito - no 1º volume o 1º poema, no outro a simetria do inédito ser prosa e término.

O tempo criado pela leitura disto é um tempo melhor. Voltamos a ver todos os nossos dias, os acasos onde estivemos com estes olhos, vemos então mais claro. ""Gostaram do meu jantar?""
De vez em quando podia ser todos os dias.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Tão Longe de Sítio Nenhum


Ursula k. Le Guin é uma escritora de ficção científica que já ganhou possivelmente todos os prémios do género, aos seus 79 anos. Continua a publicar. É portanto uma grande escritora. Pelo meio escreveu variadas coisa outras como esta novela curta sobre a adolescência. Não tem sexo (spoiler) mas podia ter tido. E não é essa a questão. Livro de 1976 mas escrito para sempre, porque eu lembro-me, eu estive lá. E tem (este texto) a enorme vantagem de destratar os pais, como é devido. Por uma vez a capa portuguesa é melhor do que a que cursa em edição inglesa.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Terça-feira, Outubro 28, 2008

El Desorden de Tu Nombre


Millás continua a fascinar-me, Juan José mais precisamente.
Nesta novela, ou romance curto, a desgana e a depressão rodeiam ansiosamente o corpo e a mente dos artistas em presença. A a avarícia e o desencanto e a súbita esperança e o porque-não-homicídio. Millás cria com o seu escrever uma névoa de difícil resolução e que leva os actores em cena a não descortinarem senão ocasionalmente a sua razão para estarem vivos, o seu quid. A fugaz aparição do mesmo, nem sempre coisa boa, pode levar às guinadas mais improváveis, ao abismo ou a uma horrível redenção.
Livro à volta de um triângulo de relações de desenho quase preguiçoso mas onde o discurso deste escritor entrama a mais asfixiante das atmosferas. Ah, e o sexo também não é nada simples.
Acusam Millás de ser um escritor "frio". E a vida nossa, todo este sonho, o que é?

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Les Fanatiques


Max Gallo, membro da Académie Française, é um escritor de venda fácil, sucesso popular e irregularidade crítica. Tem tido um percurso político em deriva para a direita, o que até está certo perante a desorientação do país que é o seu, varrido por esse fenómeno que é o Sarkozismo.
Publicou agora uma novela, "Les Fanatiques", que pretende ser uma reflexão sobre a "Guerra das Civilizações". Um "académico" françês, brilhante qb, mulherengo/"polígamo de facto", "sofre" a conversão ao islamismo da sua única filha, que se torna na 4ª mulher dum viscoso pregador islâmico, residente em Genebra. O mesmo académico sofre depois um atentado e morre. Mais? Não há realmente muito mais, o texto salta entre a emoção e a quase caricatura, disfarçado de "texto diarístico" para se desculpar o não-polimento. A caricatura de Tariq Ramadan - desconheço por completo se está correcta (mas para tal coisa bastaria um artigo de opinião...), todas as questões que são adivinhadas, não merecem a atenção ou a escalpelização devidas, procura-se apenas criar uma espécie de libelo, ou panfleto mais grande, enfim, mas para quê? Com este livro não aprendi na realidade nada, para além de desenferrujar a minha leitura em francês...

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Terça-feira, Setembro 16, 2008

Neve


"Neve", o último romance de Orhan Pamuk, o Prémio Nobel turco, conquistou-me irremediavelmente: aviso.
Comecei a lê-lo contrafeito, algo indisposto por ter soçobrado na minha abordagem de "El Castillo Blanco", seria pelo castelhano seria pela alguma aridez das elocubrações dos protagonistas, não sei.
"Neve" é diferente. Primeiro, é um romance que quer contar uma história e uma história actual. Acontece dentro de uma cidade, isolada por um nevão, onde parece caber toda a Turquia: curdos, islamitas, militares, laicos, exilados, ocidentalizados, you name it. E há (talvez) paixão, e há momentos de alto dramatismo - superiormente embrulhados com o habitual "monólogo Pamuk", pemitam-me... desta vez! E há telenovela, nas televisões e no coração de muitos deste protagonistas, que ainda quererão uma certa e determinada felicidade, em Kars ou em Frankfurt, não se sabe. E há sombras de véus islâmicos, e restos arménios e russos, tudo, tudo incluido portanto no volume talvez mais acessível da "discografia" de Pamuk.
Ka, o acrónimo do protagonista, Kar, "neve" em turco, Kars, a cidade fronteiriça isolada pela neve. Mas este jogo de palavras é apenas um começo. Livro excelente, parece que porém pouco popular na própria Turquia...

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quinta-feira, Agosto 21, 2008

La Soledad Era Esto


“Bueno, pues la soledad era esto:
Encontrarte de súbito en el mundo como si acabaras de llegar de otro planeta del que no sabes por qué has sido expulsada. Te han dejado traerte dos objetos (/en mi caso, la butaca y el reloj) que tienes que llevar a cuestas, como una maldición, hasta que encuentres u lugar en el que recomponer tu vida a partir de esos objetos y de la confusa memoria del mundo del que procedes. La soledad es una amputación no visible, pero tan eficaz como si te arrancaran la vista y el oído y así, aislada de todas las sensaciones exteriores, de todos los puntos de referencia, y sólo con el tacto y la memoria, tuvieras que reconstruir el mundo, el mundo que has de habitar y que te habita.”
“La Soledad Era Esto” é a história de uma mulher de 43 anos a refazer uma vida – do nada. E assim é a sua escrita – como que um encantamento kafkiano que se faz do nada e ganha uma força extraordinária. Talvez este seja o retrato da solidão mais original que eu já li. E que mais se pode pedir a um livro que só trata de uma mulher sozinha a não ser que não nos largue até à última página? Eu sei, sim eu sei, a inventiva de Millás enche este nada de pequenos episódios e de uma coluna vertebral – o encontro “póstumo” da protagonista com sua mãe através da “escrita”. As relações falhadas sucedem-se – filha, marido, irmão, irmã – mas nenhuma delas realmente nos faz grande companhia. A saída para esta solidão será afinal não a saída da solidão mas o movimento da mesma. Great book, muito bem escrito, com abundante saber de quem escrever ao fazer crescer muito bem a narrativa até uma quase improvável "ressurreição".
Livro de 1990, prémio Nadal.

1 Comentário(s):

Anonymous taciana disse...

Hoje no Blog fala Médico: Médicos respondem como se sentiriam mais valorizados dentro do seu ambiente de trabalho. Confira as respostas e dê tb sua opinião!
http://falamedico.wordpress.com/

4:52 PM  

Enviar um comentário

Sexta-feira, Agosto 01, 2008

El Mundo


Juan Jose Millás escreve às vezes na última página do El País, e escreve bem.
O El País tem aliás habitualmente uma última página de qualidade.
Este livro "El Mundo" é porém de outra casta no que diz respeito a esses textos de circunstância semanais, ou equiparados.
Em "El Mundo" Millás faz-nos penetrar numa infância que assumimos que terá sido a sua. E só assumimos, pois os vários episódios, a análise feita e o tipo de discurso assumem um carácter fantástico, mágico e irreal que nos leva mais do que uma vez a perder o pé. Não deixa porém de ser dos livros mais divertidos que li nos últimos tempos. E não deixa de ser extraordinariamente bem escrito. Efectivamente esta infância, esta criança, entra e sai do seu mundo - que é afinal uma rua, a sua rua sempre - por extraordinários meios postos à sua disposição, os de uma imaginação fértil como possívelmente já foi a de todos nós.
“Hay libros que forman parte de un plan y libros que, al modo del automóvil que se salta un semáforo, se cruzan violentamente en tu existencia. Éste es de los que se saltan el semáforo. Me habían encargado un reportaje sobre mí mismo, de modo que comencé a seguirme para estudiar mis hábitos. En ésas, un día me dije: «Mi padre tenía un taller de aparatos de electromedicina.» Entonces se me apareció el taller, conmigo y con mi padre dentro. Él estaba probando un bisturí eléctrico sobre un filete de vaca. De súbito, me dijo: «Fíjate, Juanjo, cauteriza la herida en el momento mismo de producirla.» Comprendí que la escritura, como el bisturí de mi padre, cicatrizaba las heridas en el instante de abrirlas e intuí por qué era escritor. No fui capaz de hacer el reportaje: acababa de ser arrollado por una novela.”
Assim reza a sinopse do livro. Livro autobiográfico mas surrealista ao mesmo tempo, in a XXI’th-century kind of way. É dos livros mais engraçados que já li nos últimos anos, repito. Roça o naufrágio (pessoal) mais do que duas vezes. Adivinha-se que Millás portanto ou é histriónico ou roça o desequilíbrio. E a mim parece-me um grande escritor.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Junho 15, 2008

Filipe II e Filipe III


Apareceram em edição pública em sequência estes dois livros, o que terá sido bem pensado.
Deve-se dizer porém que os dois textos não se defendem bem nem isoladamente nem quando analizados em conjunto.

Filipe II dedicou pouco tempo a Portugal, e no livro que sobre ele versa nota-se. A autora é Fernanda Olival. Para além da reflexão sobre um país que vivia sem uma corte, a maior parte do tempo estamos a ler detalhes sobre detalhes, quase como um livro de recortes, sobre uma corte alheia, seus requebros e complicações. Percebe-se que Filipe II e o seu valido o Duque de Lerma tentaram ter uma política europeia pacificadora; assume-se que isso foi vantajoso para Portugal. Ganha interesse este livro quando o rei finalmente se dispõe a vir a Portugal celebrar cortes, as quais acontecem em 1619, viagem completamente paga pelas autarquias portuguesas, Lisboa à cabeça, pois a monarquia dos Áustrias já andava exaurida. Cortes celebradas à pressa, de resultado escasso, abreviadas para que rapidamente se voltasse à cabeça de casal - Castela. Não se evitou porém que a entourage da corte vivesse aqui e ali algumas escaramuças com gente portuguesa - o ódio não desvanecia, até pela intempérie que já se vivia em zonas do império. O único compromisso de 1581 que nunca foi cumprido foi a retirada das guarnições castelhanas das principais cidades portuguesas. Na viagem de volta o Rei adoeceu, nunca recuperou por completo, viria a falecer no ano seguinte. Em Portugal tinha sido jurado herdeiro o rapaz que rapidamente se veria como Filipe III, IV de Espanha.

O livro sobre Filipe III tem o interesse de narrar, erraticamente embora, os porquês da Restauração. O autor chama-se António de Oliveira. Terá sido Filipe III homem algo frágil de decisão, demasiado dependente do seu valido, o conde-duque de Olivares. Antes de tempo provavelmente quis este encetar uma política centralizadora das Espanhas, onde se incluia Portugal, de forma a reforçar o protagonismo da corte e do seu governo - ele - perante as autonomias e os foros locais. Por outro lado pretendia-se manter um protagonismo europeu e uma força - vidé a guerra dos 30 anos 1618-1648 - para a qual Espanha visivelmente já não tinha nem homens nem dinheiro. Resultado: a revolta da Catalunha, a independência de Portugal. Não tinha esta Espanha nem metade do peso da de Filipe I, mesmo descontando a incompetência dos seus comandantes, vidé João José de Áustria.
A balança tinha pendido obviamente contra a união: o Império português perdia-se vítima da guerra europeia, os impostos aumentavam, a autonomia e a idiosincrasia portuguesas estavam em perigo. A revolta foi comandada pelo Duque de Bragança, tido em Madrid como o mais fiel dos nobres. Olivares não quis acreditar e chegou a pensar escrever uma carta pedindo esclarecimentos, pois tratar-se-ia de um equívoco, certamente. Por uma vez o rei teve mais sentido e disse a Olivares para se deixar de escritas e preparar um exército, não, dois, pois Espanha partia-se pelos extremos. Catalunha foi recuperada quando a França assim o permitiu. Portugal nunca mais.
O livro lê-se mal e é pena. A intenção de apresentar uma visão diferente do homem, patrono de Velazquez, não acontece. O livro sofre de um discurso entrecortado de intenções e repetitivamente opinativo. É pena.

2 Comentário(s):

Blogger filomeno2006 disse...

William.....¿Médico Humanista?

10:51 AM  
Blogger manuel cardoso disse...

Posso sugerir, já que se trata de médicos? Um Tiro na Bruma . Da Sopa de Letras. Boas férias!

11:56 AM  

Enviar um comentário

Andanças com Heródoto


O pouco que vou escrever sobre este livro do recentemente falecido Ryszard Kapuscinski nunca lhe fará justiça.
A história é simples: o jornalista, escritor e viajante, na sua 1ª missão ao estrangeiro - Índia - recebe como presente o livro Histórias de Heródoto, considerado o 1º historiador. O que Kapusscinski conta é o quão frutífero, nesses tempos pioneiros da sua actividade de correspondente estrangeiro, se revelou o diálogo entre os textos de Heródoto e as sucessivas situações vividas ou testemunhadas por ele próprio, na índia, na China, na África, no Mediterâneo. A abundante citação do texto clássico grego acrescenta, não diminui ao livro. A coloquialidade e uma quase inocência no comentário transformam as pouco mais de duzentas páginas num passeio à beira-mar, num regalo para a mente. Dizer que Kapuscinski terá sido um génio da viagem e da sua transliteração em texto é pecar por defeito.
Ed. Campo das Letras.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Objectos Frágiles


A segunda recolha de curtas de Neil Gaiman obviamente ainda não chegou a Portugal - já chegou a 1ª?
O que interessa sim é que, lido na língua que fôr o encanto persiste. Alguns pequenos textos nota-se que pouco mais são que ideias mas não interessa, alguma irregularidade é amplamente compensada por alguns contos de enorme coturno. Livro literalmente "fantástico"!
Roca ed.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Maio 25, 2008

Viagens 1978-2008


A definição de o que é a Poesia – logo a maiúscula dá começo às hostilidades – não é fácil, aviso. Nestes últimos estranhos tempos portugueses a definição estava algo banalizada pelo bucolismo universal da nossa poesia mais recente.
Não é o caso do poeta em jogo, Gil de Carvalho. Que sei dele? Pouco ou nada. Que nos 1ºs livros intrometia o apelido “Nozes” na nomeação. Que os termos, a temática variaram, mas a opacidade desta poesia foi-se mantendo ao longo dos anos. Roçando a não poesia, a sua ausência ou o seu carácter opcional. Como se a poesia tivesse que partir de quem lê, num jogo quase similar a Duchamp.


A Cegonha na Torre da Pensão do Fortunato

A cegonha
Da torre
Na pensão
Do Fortunato


Mas não, não será bem assim: o léxico, raro, os sítios escolhidos, o jogo sexual seco e redondo. As viagens, nos múltiplos sentidos. Cada palavra um abre-latas, um âmbar.


Sprezzatura

Manhã alta, no cabo levantada.
O mar parece correr da direita
Para a esquerda da tua roupa.
Soergue-te no rio: os botões mete
Nas casas, ao contrário.
Um lance de arreios. deitado
Sobre os arrabaldes, fungíveis.
Papéis cobrindo janelas ratadas
Mas belas: a sprezzatura.
Embarcações de cima para baixo
Da névoa, contrária à terra.
Esta avenida transborda do cheiro
Áspero das tinturarias.


Eis portanto um livro que desafia, que desagrada, que afasta e repele, mas ao qual se volta sempre rodando a página. Poesia estranhamente descritiva, se repararmos bem. E com um curioso diálogo com outras formas, jogando com "os dois extremos da Eurásia".


Espias ligeiras, asiáticas.
Que lá no alto - o azul
Que se via, reciclava. Seria
O fumo das primeiras cidades.


Gil de Carvalho nasceu em 1954, em Lisboa, escreveu no Expresso, na Ler, no Colóquio-Letras. Traduziu bastante poesia oriental, sobretudo chinesa, que distribuiu por várias antologias publicadas cá.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Elefanta Suite


Pode ou não ser uma boa regra mas a ficção que confronta duas civilizações, dois mundos, duas construções estranhas, em colisão ou em confluência ou o que lhe queiram chamar, devia ser escrita por alguém da parte mais frágil, da parte que predominantemente perdeu ou foi dominada. Acho. Ora se eu acho isto logo temos aqui um handicap para avaliar as três novelas que compõem o “Elefanta Suite”, último livro de Paul Theroux, americano.
É este escritor “filho espiritual renegado” de V.S.Naipaul. Escreveu um livro onde só fala de como conheceu Naipaul e de como aprendeu a… odiá-lo. Esta ruptura é famosa. Mais bem visto como escritor de semificções de viagens do que outra coisa, estas três novelas tratam de três batalhas, de três colisões entre gente ocidental, anglosaxónica para ser mais preciso, e indianos. Supõe-se que Paul Theroux portanto sabe do que fala. O texto vacila e/ou passeia-se por entre as várias vicissitudes destes relacionamentos. Há sempre nas três novelas um espaço central onde os personagens ocidentais acham ter encontrado um equilíbrio, uma paz e também finalmente entendido o que é a “Índia real” e como podem conviver com ela, nela, aliás preferindo. Engano puro e ledo, uma, duas, três vezes, embora uma, duas, três vezes se possa dizer que os fins não são completamente fechados e unívocos. A narrativa é deconfortável o suficiente para haver alguma dificuldade na adesão, nós, ocidentais, também queremos que estes clashs civilizacionais terminem sempre em bem… mas não, esta globalização que temos é uma coisa em forma de não ser bem assim, e a extrema verosimilhança da trama só arrepia ainda mais…
Três histórias que se lêem sem parar, portanto.
P.S.: lido em espanhol, edição Alfaguara. Em português Paul Theroux é difícil de encontrar...

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Sábado, Março 29, 2008

D. Filipe I


Escreve o espanhol Fernando Bouza sobre uma das figuras nucleares do século XVI europeu, o rei à volta do qual Braudel escreveu páginas e páginas de História e assim revolucionou a forma de ver todo um tempo: Felipe II de España, Filipe I de Portugal.
Folheei por acaso há dias um livro de edição espanhola numa Bertrand e que se intitulava "Reyes de España". Já saído da leitura da biografia sobre que escrevo, lá me dediquei a espreitar uma alternativa - e dirigi-me logo à data nuclear, 1580. A união peninsular era ali descrita com acontecimeto transcendente e quiçás o de maior importância em toda aquela história, ao realizar um ideal aparentemente de há muito perseguido. Nem Fernando Bouza nem aparentemente o próprio Filipe I vão ou terão ido atrás de ideais. Porque ao falar de Filipe I de 1580 estamos a falar. Tio de D.Sebastião e a quem desaconselhou a(s) ida(s) a Marrocos, foi longamente pensado o seu pleito por Portugal. As vantagens e desvantagens. A sua candidatura acabou por ser inevitável. Rei que cultivou a imagem como ninguém, não podia permitir que se desvalorizasse o facto de realmente ser ele o descendente mais legítimo, para além de ser o mais forte. E que forte ele era. Portugal não adquirido seria sempre uma retaguarda por defender. Pouco influenciou ter mãe portuguesa. Mas nunca Filipe se apresentou como rei espanhol mas sim como alguém acima das nacionalidades sobre quem reinava - e eram umas quantas: castelhanos, aragoneses, andaluzes, lombardos, sicilianos, napolitanos, flamengos, neerlandeses, esquecendo todas as possessões ultramarinas que já então eram muitas.
Fernando Bouza descreve minuciosamente estas e muito mais coisas claramente explicando como, estado a estado - 1º, 2º e 3º - Portugal foi convencido e comprado. Trabalho que pacientemente se começou a desenvolver logo a partir de 1578, aquando da morte do Desejado, que cresceu ancorado no impedimento em Roma (Filipe-sponsored) de que o Cardeal D.Henrique desfizesse os votos e pudesse casar (não sabiam desta pois não?), progrediu após a morte deste em sucessivas missões de "convencimento" misturadas com guarnições fronteiriças reforçadas, e que teve a estocada final na batalha de Alcântara com a meia dúzia de rapazes que defenderam D.António. A cereja no bolo: as cortes de Tomar, 1581, onde quase todas as prerrogativas do reino que foram pedidas concedidas foram. E tivemos rei em Lisboa a viver até 1583. Mais não.
O livro pouco fala dos anos 1583-1598, e compreende-se. Havia pouco reinar. Filipe I estava no Escorial, longe de todos, Portugal incluido.
A parte final do livro demora-se a retratar a enigmática figura. Mecenas de pintores, monarca recluído, frio e insensível? Algum anedotário tenta desfazer esta imagem. É curioso o seu relacionamento estreito com figuras que se poderiam chamar "bobos da corte". É espantoso o cuidado de Filipe I em modelar a sua imagem perante o mundo. Espanha no entanto não o deve ter entendido e terá suspirado de alívio quando da sua morte. Há quem diga porém que foi seu um século.
Nota: Fernando Bouza é realmente Fernando Bouza Álvarez, assim citado vastamente através da Internet.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

D. Pedro V


Mais um mito da nossa história a ser "aberto ao público" nesta colecção mista da Temas & Debates/Círculo de Leitores.
A autora é Maria Filomena Mónica, doutorada em filosofia e sociologia e figura conhecidíssima do "croniquismo" jornalístico, para o bem e para o mal.
Parece-me esta biografia ser tão bem escrita como a de José Mattoso para D. Afonso Henriques. Não podia porém ser mais diferente. É muito mais interpretativa, afirmativa. Há descrição, transcrição, mas há também muita opinião. A personalidade de quem escreve assim o pede, a abundância das fontes também.
D. Pedro V é apresentado como um filho espiritual de uma Europa que tardava em afirmar-se neste recanto peninsular. Curiosamente a sua suposta virgindade dá-lhe retoques quase sebastianisttas, embora os ideais fossem outros e bem mais meritórios - de educação, ilustração, progresso. Morreu viúvo (ou talvez não... de uma alma gémea, a rainha D.Estefânia) e morreu jovem. O país que o jovem rei ao mesmo tempo amava e desprezava, chorou-o abundantemente. Sucedeu-lhe o irmão, D.Luís, possivelmente uma banalidade. Sobreviveu-lhe o fontismo.
Na blogosfera Maria Filomena Mónica é ora amada ora odiada. A sua biografia de Cesário Verde, lembro-me, foi "destruída".
Eu gostei de ler esta biografia. Sobre a sua correcção não me pertence a mim pronunciar-me.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Sexta-feira, Março 28, 2008

Comboio para o Paquistão



Khushwant Singh tem hoje 92 anos mas é ainda a besta negra das letras indianas - não Hindus, pois ele é um Sikh. E é dos poucos grandes escritores do subcontinente a conhecer difusão mundial que não saiu do subcontinente. Aliás, mesmo quando teve a cabeça a prémio por extremistas religiosos de vários quadrantes, ele não saiu, embora estivesse "incógnito" por uns anos.
Escritor de crónicas, editor de jornais, contista, novelista. "Train to Pakistan" viu a luz a 1956, 9 anos após os eventos descritos, e é uma novela que pretende retratar as consequências dos dramas da partição da India - com a criação do Pakistão - em 1947, aquando da saída dos ingleses. Não se sabe quantos muçulmanos, hindus ou sikhs morreram nesse ano - milhões? Trata-se de uma cicatriz cujas consequências perduram até hoje.
Comboio para o Pakistão é do tamanho de uma novela e assim se comporta. Contista imbatível Khushwant Singh talvez tenha tido dúvidas em transformar este tema, este tempo, em algo "maior", o romance que talvez as raízes dos eventos retratados pedisse. Verdade seja dita que tudo aconteceu muito rápido: em 1946 havia uma colónia, em 1948 dois países e um, dois, três milhões de pessoas a menos no crescimento natural da população para aqueles lados, muito grande - coisa quase só para as estatísticas e, claro, para todos que perderam alguém no eufemismo do acontecimento: " The Partition of India".

"Khushwant Singh's Train to Pakistan shall ever be considered one of the most significant chronicles of the horrors that accompanied the partition of India. In this spare and tight narrative, Khushwant Singh selects Mano Majra, a small village near the border, as the place where Hindus, Muslims and Sikhs come to terms with religion based division of a country." Sim, lê-se de um fôlego, atrapalha-nos bastante, retratos há - como o de Hukum Chand, como outros - que ficam. Tem que se ler. Fica-se com a sensação que todos estes comboios, pois que há uns quantos antes e houve outros depois do comboio em questão, pediam o dobro do texto, senão mais.
Grande novela portanto, que deve ser lida e enquadrada nesses tempos fundamentais do pós-colonialismo indiano.
Só uma nota para a capa desta edição portuguesa, intragável. Até a Cavalo de Ferro começa a "achinelar" na moldura dos livros... Por isso as capas que aqui mostro são outras. A outra imagem é de uma edição recente e ilustra o que se passou. Não é preciso explicar o que os abutres andam ali a fazer.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

D.Pedro I


D. Pedro I foi rei dez anos, em meados do séc. XIV. Sobreviveu ao assassínio de Inês de Castro - degolada - para ser um rei estranho, disfórico, itinerante, justiceiro até ao excesso, festeiro, popular, um rei sem rainha, uma corte feita à medida de uma memória. São os túmulos de Pedro e Inês as 1ªs obras-primas feitas em solo português, não havendo nos duzentos anos que o reino já levava de vida obra escrita, pintada, ou esculpida que se compare. Repousam na 1ª grande arquitectura portuguesa, Alcobaça, ofuscando o resto do panteão real - hoje, Alcobaça é a igreja onde repousa o Amor em Português.
Pedro, também chamado de Cruel, conviveu no tempo com outro Pedro, Cruel, o de Castela, o homem dos Reais Alcazares de Sevilla - e logo aí pessoa do meu apreço, mas que acabou mal. Perante a grande instabilidade que viveu Castela nestes anos, sempre o nosso rei disfórico e tido como louco (de dor) conseguiu manter-se neutro, e um barómetro de paz numa península em torvelinho. Assim não foi seu filho, D.Fernando, com os resultados conhecidos.
Cristina Pimenta tem algumas dificuldades em ocultar a sua paixão pelo "seu" rei e, por outro lado, em manter acesa a chama do interesse do leitor em mais este volume da colecção sobre os Reis de Portugal. Julgo porém que, ultrapassada a aridez das páginas sobre por ex. as cortes, a mensagem principal onde se faz justiça ao Justiceiro é adequadamente transmitida.
Ah, e, já agora, lembre-se que eram os Castros família nobre galega de muita fortaleza em Castela e actores principais nas instabilidades castelhanas pelo que...
Outro dado: D.Pedro I foi ainda pai de... D.João I.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

D.Duarte


Escrito por Luis Fagundes Duarte, estrouto volume da recente colecção dedicada aos Reis de Portugal foi escolhido para leitura dada a relativa pouca importância que na nossa História é dada a este Rei, cognominado "O Eloquente".
Ao fim de um texto brilhante, ocasionalmente coloquial em demasia, mas cuja coloquialidade ajuda e muito em levá-lo - o texto - até ao fim, acabamos adeptos deste Rei. Associado muito novo aos negócios do Reino por seu pai, D.João I, viveu tempos de depressão que bem descreve no seu "Leal Conselheiro", possivelmente resultado de demasiado "despacho", "pouca folgança", digamos. Os nossos gurus da cabeça Daniel Sampaio, Carlos Amaral Dias e João Lobo Antunes dedicaram-se a dissecar esta 1ª depressão real da nossa história, vivida ainda quando infante, não rei. Sagrou-se cavaleiro em 1415 - Ceuta. Escreveu, mandou escrever, traduzir, etc. Empregou Fernão Lopes, talvez no gesto mais importante tido para a Cultura Portuguesa. Depressivo mas não fraco, "prudente", uma das clássicas virtudes. O "Livro de Bem Cavalgar Toda a Sela" é o primeiro tratado europeu do género. Associado ao desastre de Tânger, cujos instigadores máximos terão sido os irmãos Henrique e Fernando, pagou este, o outro menos, desterrando-se voluntariamente para Lagos, enquanto viveu o rei seu irmão. D.Duarte foi/terá sido subvalorizado até em vida. O autor resgata a sua memória e, ao mesmo tempo, fornece-nos uma óptima janela sobre a Ínclita Geração, que de ínclita teve pouco, mas de cujas múltiplas histórias entrelaçadas vários volumes se poderiam encher. Leitura óptima, histórias excelentes. Aliás, como é possível, assim servido, não gostar de História?

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

D. Afonso Henriques


Coube ao Prof. José Mattoso fazer uma biografia do nosso 1º rei, que estaria destinada a outro historiador, entretanto falecido. Não é por isto que o livro desmerece.
Por contar estava esta história, simples afinal, contada sem píncaros de emoção, paroxismos de originalidade, ou teorias extraordinariamente avulsas.
Os passos que o historiador dá, imerso no mito, na lenda e, muitas vezes quase no nada, procuram ser seguros, e de medida certa. D. Afonso Henriques foi um chefe guerreiro, persistente, ora cauteloso ora violento, que procurou construir-se como rei independente. Nisto contruiu, en passant, um país. José Mattoso explica como, sem estridências, calmamente. Uma história quase leve, com os principais pilares em São Mamede, Coimbra, Leiria, Ourique, Zamora, Santarém e Lisboa, Alcácer e as conquistas no Além-Tejo, até ao anticlímax de Badajoz. Aparentemente cada passo foi urdido, desenhado com uma lógica geográfica, que é hoje a nossa. As Beiras e a Extremadura devem os seus nomes a esses tempos de fronteira guerreira com o infiel. O episódio de Badajoz como 1ª grande crise de um reino recém-nascido que, na prática, é o Rei que tem (e que ali foi preso e por dois meses por Fernando II de Leão), merecia todo um livro, houvesse mais fontes, menos bruma. O Rei não pode voltar a montar a cavalo, pois terá partido uma perna na retirada. Preso o rei, imaginamos com o autor um reino em hiato, até à sua libertação. Viveu ainda 16 anos de reinado seu, em co-regência com o filho, deslocando-se no seu reino inventado de carreta, ou às costas de homens. Assim dito fica menos heróica esta vida, mas fica feito este Homem mais Herói, porque tão humano. Ele fez, e hoje cá estamos. Diz quem sabe que foi um dos livros do ano.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

O Transporte para San Cristóbal de A. H.



Imaginem que, no final dos anos 70, descobre-se que Adolf Hitler ainda é vivo, perdido algures no interior da selva amazónica.
Disto trata esta novela, 170 pp., publicada por George Steiner há + de 20 anos, ainda o seu nome não tinha o peso incontornável que tem hoje.
Não será aliás dos seus trabalhos mais citados, embora seja a sua obra de ficção de maior fôlego. Percebe-se também que o autor ficou com dúvidas sobre o resultado, e algo ansioso pela controvérsia gerada, daí um abundante posfácio.
Citamos o New York Times: "''The Portage to San Cristobal'' is a misconceived and badly executed novel, a sideshow distraction from the serious business of thinking through the unspeakable horrors of the Nazi era." Não será tanto assim...
Não temos aqui grande ficção, grande escrita. Temos um grande tema. Pouco após a publicação houve uma transposição para o teatro - que fez crescer exponencialmente a discórdia, consta. Este Hitler defende-se e contrataca. Diz não ser o maior criminoso do século. Discute sobre de que estamos a falar quando falamos de povo "escolhido": alemão, judeu? Mais não digo, o texto não está bem à altura do nome embora se leia e se deseje chegar ao desenlace, más-línguas dizem até que George Steiner pôs na voz subitamente recuperada de A. H. teorias de George Steiner, pena não ter visto a obra teatral.
''If you gaze long into an abyss, the abyss will gaze back into you.'' Nietzsche

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

A Casa Grande de Romarigães


Para entrar neste livro, tido como obra-prima de mestre Aquilino Ribeiro, é preciso algum despojamento de expectativas. Hoje desaprendemos de ler livros assim. É esta prosa “antiga”, camiliana, espraiada por palavras e construções desusadas, regionalismos, inventos. Apesar de publicado em 1957. E é o grande trunfo de “A Casa Grande de Romarigães”. Crónica romanceada assim chamada pelo autor, e que o é. Três séculos de uma casa grande, apalaçada, como há muitas pelo Minho, esta em terras de Coura. Crónica que é como uma novela esticada, quase argumento televisivo, onde paixões, temores, loucuras e desagravos se sucedem, página após página. Moral da história existirá e é a casa, que cresce e se arruína ao som dos desvarios de senhorio. É Aquilino mestre na enunciação dos quereres e das paixões, pois por aqui se movem os seus artistas, sem parar. Análises profundas do humano, psicologismo estendido não se encontra, personagens desenhados em duas, três pinceladas. E as pedras, e as plantas e os animais por ali cantando, como cantante é a prosa deste senhor. Porque o melhor deste livro é - repete-se - o texto, as palavras em jogo, que não descansam.
“ - Há-de estar com fome – disse a mulher. – Eu vou buscar que comer. Faço-lhe uns ovos com fatias de cobro, quer? Cozeu-se ontem o pão. Vinho, mando por ele à taberna…
- Faça lá! Mas, olhe, ande-me depressa…
Rodou a mulher. Viu a um canto a corda de encarrar. Esteve um momento cisma que cisma. Pegou dela, meio sorridente; fez um laço; atirou-a à trave e subiu para uma arca.
A velha veio encontrar um espantalho com a língua de fora, as pernas a bater ainda uma na outra, com duas baquetas monstruosas no repelão da própria pancada.”

Outro bocado de texto aparece no início-início do romance e engloba a mais bonita (e conhecida) definição em português da floresta:

"Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta.

Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo.



Ora certa manhã de Outono..."

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Marc Ferro, vários






Marc Ferro será uma referência na História Contemporânea Francesa. E depois do livro já mencionado sobre o "Ressentiment dans l'Histoire" decidi comprar nos últimos tempos alguns livros “de poche “ seus. Passeando de um para outro, já os li quase todos. A saber: "Histoire des Colonisations"; "Le Livre Noir du Colonialisme" e "Le Choc de l'islam". E só posso recomendá-los. Duas coisas necessárias, atenção!
Primeiro, desenferrujar mesmo o francês. Depois, prepararmo-nos para a nossa própria ignorância perante a avalanche de informação expedida.
Ah, e já agora, estes livros são um pouco confusos. Andam para trás e para a frente, de império para império, de história para história, de continente para continente. Solução: cada capítulo como um artigo de revista, sair e entrar, o prazer de aprender e ler, no fim tudo fará sentido.
E estes livros são implacáveis. Compreensivelmente “Le Livre Noir du Colonialisme” está maioritariamente por ler: não houve estômago.
E também refiro o enorme gozo que me deu a sua leitura. Recomendo especialmente “Le Choc de L’Islam”.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

O Canto da Missão


O Canto da Missão é o último romance de Jonh Le Carré. Estamos a falar da história de um homem mestiço, “zebra”, congolês de nascimento e inglês de nacionalidade e vivência, tradutor de línguas nativas e ocasional fornecedor de serviços para determinados serviços secretos. Está servida a comida, os maus europeus querem aproveitar-se dos corruptos e rudes africanos. Um linguista é a melhor pessoa para ler, ouvir, perceber o que as palavras não dizem, os esquemas, as maquinações. O Congo, antes o Quénia, o Panamá, o Afeganistão, o Iraque. Os brancos, os europeus não aprendem, eu sei.
Mas isyo não é literatura. Há uma revelação duma africanidade que estava escondida, uma grande paixão, um herói improvável, e uma previsibilidade da história que me provoca alguma sonolência a partir da metade da história. John, I’m bored!

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Vem Comigo




Traduzir pertence ao campo das mais difíceis artes. Eis porque quando não gosto de um texto traduzido, porque não soa, porque não corre, porque não flui como deve ser, nunca sei de quem é a culpa.
Outra coisa é a tradução de um título.
“None To Accompany Me” é um romance de Nadine Gordimer de 1994. A escritora sul africana tinha recebido o Nobel 3 anos antes. Politicamente muito mais empenhada nas evoluções da sua terra do que o seu conterrâneo Coetzee, outro nobelizado, que entretanto já fugiu para Adelaide, Austrália e se naturalizou australiano, é este romance uma história de transição, de várias pessoas, casais ou não, num país em mudança. Mas mais ainda a história de uma transição na vida de uma mulher, Vera Stark, mulher de meia idade, branca mas activista do lado certo, e a sua progressão para um determinado caminho, solitário. Daí o título. Que em português, de estarrecer, a Texto transmutou em “Vem Comigo”, com a capa “lindinha” de duas mão dadas, cores opostas.
Este livro parece-me levemente autobiográfico, ou pelo menos não andará muito longe do “corpo mental” da autora, mulher que conheceu a prisão sob o apartheid, amiga de Mandela e de Mbeki, embora opositora firme da política HIV governamental. Mora onde sempre morou, em Joanesburgo, cidade violenta. Recentemente foi sequestrada, safou-se. Há algo parecido, premonitório também, neste livro.
O texto é nervoso, passeando entre a introspecção e os eventos e os ângulos das opções difíceis a que os personagens são submetidos. Tem uma escrita que salta, própria da autora. Não é um livro violento, mas há pessoas que morrem, claro. É a África do Sul, início anos 90. A terra, a pobreza, as cores que mudam. E a vida é mesmo assim, predominam os desencontros sobre os encontros. É um óptimo romance.
“None To Accompany Me” não é “Vem Comigo”.
O livro abre aliás com estas duas citações: de Proust “Nunca devemos ter medo de ir longe demais, pois a verdade encontra-se mais além.” E de Bashô: “Ninguém para me acompanhar neste caminho:/ Anoitecer no Outono”.
E termina assim: “Vera saiu para o azul de ébano mordente do ar de Inverno, como se mergulhasse no seu choque delicioso. Fechou a torneira com a satisfação de uma mulher uma realizar a tarefa de operário. Em vez de entrar logo no anexo, foi até ao jardim, correndo o fecho do blusão sobre o calor vivo. O frio cortava os lábios e pálpebras; cobria de geada a disposição das duas cadeiras e mesa; tudo despido. Nem uma folha nos membros suaves e lisos das árvores, nos arbustos como arame emaranhado; as frondes secas das palmeiras rígidas como os seus dedos. Um espesso rasto de gelo esmagado ao de leve, as estrelas cegavam-na quando atirou a cabeça bem para atrás; ficou ali sob o balanço do céu, de pés fixos, no eixo do mundo da noite. Vera passeou um pouco, durante algum tempo. E depois retomou o seu caminho, com a respiração a sair em fumo, uma assinatura que a precedia."

1 Comentário(s):

Anonymous Andreia disse...

O meu comentário reporta-se ao livro de Nadine Gordimer, ou melhor, à autora, pois estive indecisa entre comprar esse livro e "A Arma da Casa", tendo optado por este último, cuja leitura aconselho vivamente.
Entretanto comprei "Faz-te à Vida" mas estou sensivelmente a meio e com dificuldade em prosseguir a leitura. Creio que o seu estilo, se lido durante algum tempo initerruptamente, se torna cansativo.

7:55 PM  

Enviar um comentário

O Acidente


Tenho acompanhado a trajectória da escrita poética de Jorge Gomes Miranda (n.1965). Este ano saiu na Assírio&Alvim “O Acidente”. Explicito que custa 8 €. Vale muito mais.
O nome não sei muito bem de onde nasce.Cada poema, e são vinte e um, tem como título um objecto, e falamos de objectos contemporâneos, banais e frequentes, um copo, uma mola de roupa, o computador, o telemóvel. O último poema é sobre este horrível objecto. E termina:

“Ainda assim, hoje não pretende levar
ao extremo o silêncio,
e depois de inserir o código,
marcar o número, encosta o ouvido esquerdo a
um búzio
e o mar responde.”

Antes, neste livro superlativo:

“Olha para o seu lado esquerdo.
Removida do rosto uma sombra,
Outra, ainda sem nome,
Investe já contra a pele.”

Nome do poema? “Lâmina de barbear”.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Junho 27, 2007

Le Ressentiment Dans L'Histoire


Marc Ferro veio participar no 2º ciclo de conferências da Fundação Calouste Gulbenkian intituladas "O Estado do Mundo".

E trouxe como tema-bandeira este seu livro recente, saído este ano nas Ed. Odile Jacob. A história recente da Polónia, as velhas inimizades franco-germânicas, os desentendimentos ex-colonizado/ex-colonizador, de tudo se fala aqui e bem, e apresentando as coisas sem subtilezas, ou em versão reduzida. Os povos passam o tempo a queixar-se ou a detestar um outro povo - mais ou menos qualquer - e que estará ou não ao lado. Mas até esta lógica e contra-lógica do ressentimento se pode aplicar às revoluções, e aos grupos profissionais, vidé o triste fenómeno Bové.

Livro em francês acessível, como acessível e fluida é a escrita. E actual. E a não perder, até quem ainda quer saber ler em francês, como eu.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Junho 17, 2007

O Despertar do Irão



Nem o Prémio Nobel da Paz (2003) defende por completo uma mulher como esta. Shirin Ebadi aparece como uma curiosa percursora de um possível futuro no mundo muçulmano. E esse futuro, parafraseando, ou será feminino, ou não será. Não defende por completo da calúnia, da incompreensão, do estranhar de ela continuar lá, quando tão mais fácil seria o exílio. De ela não renegar o seu país, nem pisar a sua bandeira. De inclusivé se fazer "mais islâmica" do que o sentido, embora crente, embora reze, para melhor poder penetrar no "sistema" e defender os seus, ou melhor, as suas, mulheres e crianças. A história dos últimos 50 anos do Irão está neste livro, escrito em parceria com Azadeh Moaveni. E começa acertadamente com o derrube de Mossadegh pelos Americanos. Um 1º ministro culto, laico, e querido pelo seu povo.


A Times Magazine considerou-a recentemente um dos líderes inspiradores do nosso tempo. Depois fui ler. Ao lado estava Margaret Tatcher. Um longo caminho por percorrer, pensei. Talvez a leitura na íntegra deste livro ajude. Não desesperem, o livro recompensa: mortos são às centenas de milhar.


"Na noite em que ela partiu, uma noite temperada de fim de Verão, peguei no Corão e segurei-o bem alto na entrada da porta, para que ela passasse por debaixo dele três vezes quando saísse, num ritual de partida para os entes queridos que realizámos demasiadas vezes desde a revolução."


Uma cuidada edição da Guerra e Paz.
PS: ver este link muito actual.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Sábado, Fevereiro 03, 2007

A Minha Andorinha


O melhor escritor português de humor chama-se Miguel Esteves Cardoso. E está de volta. Chama-se este livro “A Minha Andorinha” e é editado pela Assírio & Alvim. Está como sempre, o MEC. Embora conste que mais regrado. Sem dúvida mais velho, e mais gordo. Mas igual a escrever. E a sua ausência fez crescer uma determinada água na boca, na dose certa para desembocar aqui. Nem todos os textos são excelentes mas em nenhum deles se perde o tempo, e quadros há, como o da “Bomba P”, ou de algumas reflexões sobre as agruras e venturas do casamento, que são vintage, e imperdíveis.
Há muitos anos alguém me ofereceu, com suponho que amigo carinho, o “Amor é Fodido”. Livro crepuscular de um MEC talvez em crise, quem sabe se pessoal, possivelmente farmacológica e futuramente hepática. Não gostei do livro, embora tenha “partes”. Quando mo ofereceram, então também não gostava do que me estava a acontecer.

Em resumo: meu, ainda bem que voltaste!

3 Comentário(s):

Blogger hesongping disse...

hello,I recommend to you the best browser in history,I really loved it,I hope you may want to download and try. thank you.

7:06 PM  
Anonymous Anónimo disse...

[url=http://carisoprodol.echayka.com]buy carisoprodol[/url], [url=http://fioricet.echayka.com]buy fioricet[/url], [url=http://paxil.echayka.com]buy paxil online[/url], [url=http://genericcialis.echayka.com]buy generic cialis[/url]
Maybe it's will help somebody

11:52 AM  
Anonymous Anónimo disse...

No deposit POKER bankrolls
Poker free bonus - no deposit needed :)

6:54 PM  

Enviar um comentário

Termo de Óbidos

“Recorda-os”. Assim começa, em sub-dedicatória, o último livro de poesia de João Miguel Fernandes Jorge.
Passam os anos, nasceu este homem no Bombarral em 1943, escreve e publica há 35 anos, muitos e bons livros. Pertence a uma geração, a dos setenta, que recebeu a difícil tarefa de suceder aos desmandos da poesia “sexagenária” dos anos anteriores, antecipada pela “monstruosidade” de um Herberto Hélder, ou de um Ruy Belo. Como fazer? Para quem sabe fazer, não será difícil. E assim tem sido para JMFJ. Há 20 anos, sobre “Tronos e Dominações”, escreveu Miguel Esteves Cardoso a “boutade” de que era JMFJ “o maior poeta português vivo”. Compreensível enquanto provocação mas não só: Herberto Hélder e Cesariny já então não escreviam poesia, que se soubesse. Outros nomes não se colocavam já no auge do seu “fulgor literário”, o que quer que isso seja.
O último livro de poesia de JMFJ chama-se então “Termo de Óbidos”. E, que me lembre, é o primeiro dos seus livros que, explicitamente, recorre à infância como mote para as voltas que são 66 excelentes poemas. Poetas mais jovens, e explícitos devedores a esta poesia recorrem o caminho da viagem no tempo com demasiado afã, como se demasiado difícil fosse o diálogo hoje com o presente. O presente da poesia, como sabemos, pode sempre ser Outro, por muito Real que se use para o seu nascimento. O termo de Óbidos, noção geográfica das terras da criança João Miguel. O melhor livro de poesia de 2006 chegou em Dezembro. Tão discreto chegou que no site da editora dele (Relógio d’Água) ainda não existe registo.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

O Homem que Confundiu a Mulher com o Chapéu


Por muito que se tenha um desgosto com esse facto, este livro é merecidamente um best-seller. E porquê?
Porque Oliver Sacks retrata de uma forma a um tempo carinhosa e elevadamente poética a ciência da doença cerebral, adicionando exemplos sobre exemplos de quadros clínicos de déficit, de excesso, de desequilíbrio, de desintegração. Nunca uma sucessão de tragédias pessoais neurológicas terá sido tão bem - e respeitosamente – apresentada. Deixamo-nos enredar pelos quadros “exóticos”, pelos mistérios das alucinações, dos tiques, das convulsões, ou pela discrição das afasias.
Este é um mundo estranho, tanto como os oceanos mais profundos, e o aventurar-se nestes tempos pre-TAC cerebral (já nem falamos da RMN) requeria profundo saber clínico, e muito querer. Um livro delicioso, um convite à Neurologia que é como um convite para a primeira dança.

1 Comentário(s):

Blogger redonda disse...

Já quase que li esse livro. Tive-o nas mãos e quando ía pagá-lo, uma das minhas irmãs disse que o tinha. E depois esqueci-me de lhe pedir emprestado. Tenho que ver agora que fui lembrada, se não me volto a esquecer...

3:26 PM  

Enviar um comentário

A Originalidade da Expansão Portuguesa


Houve um tempo em que Portugal geria um império. Orlando Ribeiro foi a coluna vetebral da geografia portuguesa do séc. XX. Para além de textos e textos redimensionando o rectângulo, Orlando Ribeiro dedicou anos de estudo e de viagem às antigas províncias ultramarinas. E ainda em 1981 publicava um livro sobre a colonização de Angola e o seu fracasso...
Reune este livro uma sucessão de conferências acontecidas e tornadas texto no final dos anos 50. Sendo momentos de palavra nem sempre em conexão uns com os outros, às vezes repetem-se as ideias, as teorias sobre a expansão portuguesa e a sua originalidade. Subjacente o indizível, o desmoronar anunciado de um império. De que o nosso autor tem pena, e também por isso o idolatrar de um Brasil onde o sucesso da integração das raças, do miscigenar das genes... optimismo bebido em Gilberto Freyre... e que OR não consegue aplicar ao resto do mundo em português. Textos muito bem escritos sobre uma história, a nossa, e um enorme espaço, idem. Transbordantes de entusiasmo por uma ideia, uma hipótese de trabalho, que já então se estava a perder na bruma do tempo...
A edição é riquíssima, patrocinada pela Comissão Nacional de Comemoração dos Descobrimentos, e é de 94, pela Sá da Costa.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Perdoar Helena


"A reflexão que proponho nesta peça é sobre a necessidade do perdão e como essa experiência se impõe, a dada altura à Humanidade e à História para ganhar o seu sentido pleno"
Isto afirma o autor José Tolentino Mendonça, ao pretender "explicar" esta sua 1ª peça de teatro, já representada pelos Artistas Unidos. Mais conhecido como poeta, é este texto senão um longo, longo (e belíssimo) poema, e onde se reconhece a nascente mas temos dificuldade em decidir dos vários mares para onde derivam as várias fozes.
Representada que foi por três actores, a mulher não tem aqui fala, lembrará apenas o pretexto "Helena". Esclareço que a peça não vi. Li e para escrever chega-me.
E são um cuidador e um cuidado. Cuidado um encenador, mais velho quero crer, que perante um bloqueio ao encenar Helena de Eurípides, desapareceu - de cena, para só voltar para encantar o cuidador: partigiano. Ter-se-á perdido o homem num mito - a "beleza má" de Helena, ou no todo teatral ("... personagens clandestinos. São uma infiltração. Chegam de todas as partes.") e na imagem de Helena como tecedeira de uma guerra, ou de uma vida - a de todos, gregos e troianos, dez anos de guerra tecidos no engano, ou a imagem em espelho, a de uma Helena tecida por um tear maior, onde os elementos, o tempo, os objectos, o anonimato... "Vejo Helena por toda a parte..." Não seria então culpada Helena mas algo "nuvoloso". Existe Helena?
Começa a peça pelo enunciar da medicação que o cuidador dispensa ao cuidado. Não sei se por desconhecimento os nomes estão alterados, Vastarnel, Flindex... não Lanoxin, o "poderoso veneno do coração". Percebe-se estas drogas, tentativas para resolver este descozimento do coração e dos nervos. Helena e o mundo que nos é destinado, o fado, a beleza - fugidia, a maldade ou as costas de uma mão.
Mas outro lume perpassa por esta peça, um risco a vermelho, a relação de fogo entre cuidado e cuidador, a loucura que fascina e queima brilhante. A descida ao mais profundo de um sonho, ou mito, ou texto. Com uma luz imensa, da qual certamente resultarão não os primeiros mas os últimos "ossos humanos carbonizados". "Há em certas imagens uma dobra. Uma passagem secreta por onde nos esgueiramos."
A sedução através da palavra: partigiano. Partigiano, o herói da resistência italiana, um seguidor, um crente, um cego adquirido.
Eu acho que a explicação acima não tem nada a ver com este texto.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

O Virgem Negra


A adoptar Mario Cesariny como ídolo for life, agora que esticou o pernil, há que fazer-lhe o ripanço completo.
E nada melhor do que começar pela sua última obra publicada, em 1989, "O Virgem Negra", tendo como subtítulo "Fernando Pessoa explicado às Criancinhas Naturais e Estrangeiras por M.C.V.".
É um livro directo na paródia e no tiro ao alvo, quer a Pessoa, quer a toda a crítica à volta. O sampling da poesia pessoana (porque original de Cesariny aqui pouco há) é deliciosamente hardcore, com o mote bem colhido pelos guizos e as voltas em torniquete aplicadas.
Cesariny não facilita. E, ele que nas antípodas de uma vida pessoana navegaria, defende atacando, ou não. No ano anterior, em 1988, tinha sido a trasladação dos restos de Pessoa para os Jerónimos.
Há muito rede cruzada de referências e picadas de vespa, e muito esoterismo desbragado. Ou se calhar nosso amigo Mário apenas quer explicar o doido (sexual, genial...) que sepultámos nos Jerónimos, pelo menos na sua versão. Às criancinhas...
"Colhões tenha quem lê."

"É importante foder (ou não foder)?
é evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver"

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Outubro 08, 2006

Rio de Janeiro: Carnaval de Fogo


Ruy Castro (n. 1948) é o escritor brasileiro a quem cabe a responsabilidade de retratar, para a colecção O Escritor e a Cidade, traduzida na ASA, a "Cidade Maravilhosa".
Coisa que faz em quase vertigem, sem qualquer esmorecimento ou hesitação. O que aparece escrito sai do coração de um amador de uma cidade amada como nenhuma outra, baía inigualável.
São trezentas páginas de cortar a respiração, e cheias que nem um ovo de estórias e de história, com os dois lados bem fornecidos e a não aborrecer.
Tanto que até dá para pedir: algum defeito, please? Ruy Castro apresenta uma visão deslumbrada e deslumbradora do Rio, muito bem escrita. Claro que nunca por nunca estes livrinhos terão obrigação de isenção, deus nos livre. Porém, porém, porém, apenas digamos 85% dos elogios... seria talvez menos dose...
E o livro não responde a esta minha pergunta: porque eu não quero ir viver para lá. E o livro quase nada fala de uns pequenos detalhes chamados favelas, morros, essa gente que faz o tão elogiado e efectivamente único Carnaval do Rio...
Pensemos um livro sobre o Porto, por ex., e que não fale sobre o Lagarteiro, o Cerco, o Aleixo, aTriana... é possível, claro, e já terá acontecido inúmeras vezes...

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

O Império


Este livro de R Kapuscinski é anterior ao atrás referido "Ébano", e é diferente, por várias razões.
Kapuscinski é polaco, mas nascido em Pinsk, que hoje é na Bielorrússia. E o livro começa com lembranças da sua infância, da invasão alemã. O livro começa portanto em 1939. E embora o enfoque predominante seja o desmoronar de 1989-91 do Império Soviético, o texto está completamente impregnado das décadas anteriores, com inúmeras referências a Stalin, a Beria, a Brejnev. Por outro lado, a neutralidade empática do autor que trespassa todo o livro africano sofre aqui alguns pequenos sobressaltos, pois o autor confronta-se com uma vez mais situações extremas, corre riscos muito sérios, cruza-se com o inimigo no mesmo passeio.
Este livro é e não é um documento histórico, está velho de pouco mais de dez anos. A Rússia de hoje estará um pouco melhor. Mas, infelizmente também, um pouco mais calada. Tudo afinal, para salvar o "Império".
Mais um livro de Kapuscinski de penetrante análise das gentes e dos todos a que costumamos chamar povos, e que se lê até ao fim sem parar.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Longe de Veracruz


"Hace poco, en una presentación pública en Hungría en la que todo el mundo esperaba que leyera apartes de su Teoría de Budapest, Vila-Matas cambió programa y se dedicó a contarle al público lo que hay en cada uno de los números de la calle de París en donde está su hotel de siempre, y entonces habló de una farmacia, de una papelería, de la embajada de Siria, pero también de una extraña casa de la que nadie tiene noticia y que no aparece en ninguno de los registros de propiedad a los que se puede acceder por internet, y de la que no saben nada ni en la farmacia ni en la papelería y mucho menos en la embajada de Siria, pues nadie ha visto entrar o salir nunca a nadie.
En ese momento llegó a su cenit el estilo de narrar de Vila-Matas, pues a continuación dijo que se había dedicado a espiar la casa desde su cuarto de hotel, y descubrió que por las noches se encendía una luz en el segundo piso. Y ahí empezaron las cosas raras, pues en el libro que estaba leyendo irrumpió un personaje sirio que decía “camina despacio hasta la esquina, y corre”, y luego en el periódico del día leyó algo sobre un farmacéutico asesinado, y al volver a la ventana notó que alguien lo espiaba desde la papelería… La maldad de una calle, dijo, y aseguró que aún lo perseguían farmacéuticos y diplomáticos sirios.
Este es el mundo de Vila-Matas, un extraordinario universo de obsesiones y lecturas, y del modo en que éstas van dirigiendo una vida o la destruyen, como sucede en Sucidios ejemplares (que presenta por estos días en Roma) cada vez que alguien escucha un lejano tamborileo que seduce y atrae, y que resulta ser el tam-tam del país de los suicidas."
Este texto pertence a um jornalista colombiano de nome Santiago Gamboa e foi pescado na net. Define a estranheza que persiste ao longo de toda a escrita de Enrique Vila-Matas, barcelonês nascido a 1948, sucesso curiosamente precoce em Portugal e um pouco tardio em Espanha.
Longe de Veracruz, ed. Assírio & Alvim, é o seu 1º romance, e é um grande romance. Trata da vida de três irmãos, os Tenorio, relatada pelo aparentemente menos dotado dos três, e que - aos 27 anos - se declara velho e acabado, pelo que nenhum outro refúgio lhe resta do que... a literatura. Esta é apenas a 1ª das muitas ironias, sarcasmos, círculos e envios que bordam esta escrita cansada, enleante, depressiva, viciante.
Em Veracruz por uma única vez Enrique Tenorio foi feliz.
"Às vezes imagino que me vou embora.
Às vezes imagino que está a chegar a minha hora, que a polícia entra em casa e devo fugir pela porta das traseiras. Às vezes imagino o que me aconteceria se me interrogassem e o inspector me perguntasse por que disparei contra Deus em Veracruz".

1 Comentário(s):

Blogger joeysmith34792802 disse...

hey, I just got a free $500.00 Gift Card. you can redeem yours at Abercrombie & Fitch All you have to do to get yours is Click Here to get a $500 free gift card for your backtoschool wardrobe

12:21 AM  

Enviar um comentário

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Ébano - Febre Africana


Já vai em 3ª edição pela Campo das Letras este livro de pequenos episódios africanos de Riszard Kapuscinski. Nascido em 1932 na Polónia, este repórter anónimo foi-se tornando progressivamente uma referência internacional no jornalismo de reportagem, fazendo das insuficiências da sua agência noticiosa e da sua “neutralidade” polaca uma vantagem para que as portas e as gentes se abrissem à sua passagem. Por exemplo, no princípio dos anos 70 foi enviado para o Irão do Xá Reza Phalevi. Sem dinheiro e quase restrito ao apartamento em que vivia pelos recolheres obrigatórios e a agitação social, consta que escreveu praticamente todo um livro sobre o que os seus vizinhos e as pessoas que passavam lhe iam contando.
“Ébano – Febre Africana” é um conjunto de textos sobre a África que ele foi conhecendo, desde os anos 50 peri-descolonização, até hoje. Kapuscinski tem um aspecto bonacheirão e pacato, mas no terreno procurou sempre o caminho, o lado ou o bairro alternativos. Em cada episódio fala-se de pessoas, gente pequena mas que aqui é sempre tratada como única. Não há distância, não há filtros, não há escapatórias. Não há dramatismos, nem grandes planos, nem objectivas olho-de-peixe. Kapuscinski consegue, por ex., falar do drama do Ruanda com palavras simples e lineares, mostrando o horror sem horror manifesto. O ditadores fantásticos que a África já sofreu, e estão aqui uns quantos, são expostos sem apelo, mas também sem exclamação. África é muitos rios, e tudo o que acontece pertence e não é extranho às múltiplas águas. Mesmo o Ruanda, Idi Amin, etc. Na sua estadia em Lagos, decidiu ir viver para um bairro que lhe foi altamente desaconselhado. O seu apartamento, que não era fechado por impossibilidades óbvias de temperatura e de construção, era regularmente assaltado. As poucas amizades que fez explicaram-lhe que tal era uma forma de pertencer à comunidade, e que opor-se a essas ocorrências com fechaduras, etc., seria não só inútil como mal-visto, e a sua vida então correria perigo. Ao fim de algum tempo em que Kapuscinski foi conhecendo mais gente, um dos seus amigos de bairro levou-o um dia a um mercado. Aí comprou-lhe umas penas de galo e mais uns acessórios e pendurou-os da porta de entrada. Os assaltos acabaram.
A fome, a violência, a morte semrazão, a pobreza infinita, são presença constante durante o livro, mas não provocam uma alteração do tom de voz. Se em África quase só há pobreza infinita, violência, etc., como relatar alterando sempre a voz? A palavra “riqueza” bem como outras, são redefinidas ao longo das páginas de”Ébano”.
Há anos que não lia um livro mais… “humano”. Como uma conversa à lareira, como uma parábola sem fim. Mas que não é uma parábola. As pessoas que residem nestas quatrocentas páginas têm nome, filhos, casa (nem todos…), trabalho (às vezes…), e (quando conseguem comer) ainda têm opiniões, esperanças, virtudes e defeitos. São mais pessoas do que eu.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Domingo, Agosto 20, 2006

Smokes and Mirrors (Short Fictions and Illusions)


Esta é a prova provada de que estamos perante um leitor e pêras! Não é que ele se reporta a uma leiturita feita no mesmo vernáculo inglês?
Eu explico: esperar pela edição completa dos livros de Neil Gaiman em Portugal é desesperar.
E este livro, "Smokes and Mirrors", colectânea em paperback de pequenas histórias fantásticas (e fantásticas...) de uma ou de dez, vinte, trinta páginas... estava ali na livraria a olhar para mim...
Bom, a sério, o inglês de Neil Gaiman, apesar de às vezes gótico, outras vezes medievalista, apreende-se no geral bem. Uma muito ocasional visita ao dicionário também não envergonha ninguém.
E as histórias, algumas das quais eu já vi/li desenhadas... são espectaculares. E não cansam. A temática, sempre dentro do género fantástico, e muito variada, também os ritmos, as intersecções, os fins e os meios que se antepõem.
Smokes and Mirrors... expressão inglesa que quer dizer "something that deceives or distorts the truth" (do dicionário...)
Superior.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

O Doente Inglês



Michael Ondatjee é um poeta e prosador canadiano de origem cingalesa que, com este livro, obteve o Booker Prize e ascendeu à galeria dos grandes romancistas da actualidade em lingua inglesa.
Então, o que se passa com este livro para eu não gostar demasiado dele?
O problema não está em ter visto primeiro o filme. O filme, clássico e romântico e Oscar-driven, amaciou algumas arestas do texto e da história. Mas isso agora não interessa.
O problema está em eu ter lido primeiro "O Fantasma de Anil", romance subsequente de Ondatjee imerso na guerra civil do Sri Lanka, e que tem exactamente o mesmo tipo de construção.
A saber: heroína e herói atormentados, fundo de guerra, selvajaria e injustiça, figuras colaterais dúbias, incertas, circunstâncias excepcionais, desencontros imprevistos, muita intercepção multicultural, pelo meio, com gente que nasceu aqui, viveu acolá e agora está "aculi".
A saber: texto rápido, nervoso, entrecortado, metafórico, a roçar um realismo mágico nebulizado com salbutamol. Saltos no tempo e nos lugares, coisas que não se sabem agora e se aprenderão depois - para que as imagens não cansem e a enumeração das vítimas não assuste.
Michael Ondatjee sabe escrever muito bem, e pelo que já li on-line é também um bom poeta. Mas um romance é mais do que isso. Encher trezentas ou quatrocentas páginas de eventos excepcionais e situações de colapso pessoal/mundial/nacional não chega para criar a levitação. O grande romance devolve-nos a possibilidade da existência de Pessoas Maiores, ou de uma Escrita Divina que nos redima.
Como exemplo de uma Grande Escrita tenho Durrell, como pessoa Maior Adriano Imperador, de Yourcenar... ou Athos, de Dumas. Exemplos...
Hana, ou Anil, são mulheres que procuram seguir uma missão, um objectivo, uma missão que lhes escapa, que as ultrapassa, porque estamos em Itália na 2ª Grande Guerra, porque estamos no Sri Lanka em guerra civil.
E mais? Ficando pelo "Doente Inglês", as figuras masculinas parecem-me mal desenhadas. Caravaggio (porquê este nome?) não se percebe. Kip, o sapador sikh, é um estereotipo completo - e a sua saída de cena mal desenhada. Almásy, o "doente inglês", é, na minha opinião mal (re)construido, excedendo-se na paixão a dose, quando o nihilismo e dupla face daquele que foi enquanto figura histórica espião nazi não são adequadamente bem tratados.
Enfim, eu acho que esta coisa de "muita hormona" em ambiente de guerra (que para mim foi em dose dupla...) não me convence...
"O final é estranho, porque era difícil acabar este livro, explicou o autor." Pois...

2 Comentário(s):

Blogger redonda disse...

Finalmente um livro que tenho!

3:28 PM  
Anonymous Anónimo disse...

li este livro e nao percebi muito bem do k se tratava... nao deixa de ser um romance exotico... confesso k o axei um pouco complicado....bj :(

10:26 PM  

Enviar um comentário

Terça-feira, Julho 25, 2006

Considerações Sobre a Desgraça Árabe


Samir Kassir foi assassinado o ano passado, aos 45 anos de idade - o seu carro explodiu em Beirut.
Jornalista conhecido e intelectual da oposição libanesa, parte importante da chamada "Revolução dos Cedros" que levou à retirada das forças militares sírias do Líbano, seria uma pessoa incómoda. Entre outras coisas por ser uma pessoa laica e assumir-lo, coisa difícil de ser e fazer no Médio-Oriente.
Este pequeno ensaio (138 pp.) responde em jacto e apaixonadamente - mas com muita sabedoria - a vários quesitos, a saber:
"1. Onde se vê que os árabes são hoje os seres mais infelizes do mundo, mesmo que não o reconheçam
2. Onde se vê que a desgraça é a mais bem partilhada de todas as coisas do mundo árabe
3. Onde se vê que a desgraça árabe é um momento de história, e que é maior hoje do que ontem
4. Onde se vê que a modernidade não foi o momento da desgraça
5. Onde se vê que a desgraça não é o resultado da modernidade, mas sim do seu fracasso
6. Onde se vê que a desgraça dos árabes está na sua geografia, mais do que na sua história
7. Onde se vê que a maior desgraça dos árabes está na recusa de sair dela mas que, à falta de vislumbrar a felicidade, o equilíbrio é possível"
Publicado em França e no Líbano em 2004, este livrinho dialoga não para fora mas sim para dentro, com a própria "Arabolândia", enquistada nas suas perdas e agravos. Obriga portanto a conhecimentos de história e de enquadramento sociológico às vezes não comuns no Ocidente, malgré nous. Trata-se de um livro que pede outras leituras, que podem acontecer antes ou depois.
Pelos títulos dos capítulos percebe-se o entusiasmo provocatório, o pretender desmantelar do "ogre modernista", a ambição de "mudar" alguma coisa, falando sem medos "sobre tudo". O autor é impiedoso no que diz respeito à situação política dos diversos países árabes.

"Imaginar o fim da cadeia da desgraça como uma possibilidade imediata seria sem dúvida demasiado ambicioso. As distorções do desenvolvimento árabe agravaram-se demasiado para que possamos pedir a felicidade já. E a persistência da hegemonia ocidental, agravada pela ocupação americana do Iraque e pela supremacia cada vez maior de Israel, não permite postular um despertar árabe rápido. Mas nada, nem a dominação estrangeira, nem os vícios estruturais das economias, e menos ainda a herança da cultura árabe, nos impede de procurar, mau grado as piores condições do presente, a possibilidade de um equilíbrio.
Para o conseguir, são necessárias bastantes condições, e nem todas elas dependem dos árabes. Mas, na impossibilidade de as reunir todas, pode-se sempre forçar o destino, começando por aquela que é a mais urgente, e sem a qual não há salvação possível: que os árabes abandonem o fantasma de um passado inigualável para encararem por fim de frente a sua história real. E, um dia, lhe virem a ser fiéis."

Está de parabéns a editora Livros Cotovia.

1 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

I have been looking for sites like this for a long time. Thank you! Chris everett tennis camp Cosmetic spatulas manufacture malpractice

2:26 PM  

Enviar um comentário

Domingo, Julho 16, 2006

A Fé em Guerra (uma viagem pelas frentes islâmicas, de bagdade a tombuctu)


Traduzido para português e editado pela Civilização no mesmo ano da sua edição original, este livro não podia ser mais actual... ou podia?
O facto é que o Iraque, com as suas dezenas de mortos diárias, está-se a transformar numa em mais uma daquelas notícias que, à força de o serem durante anos, vão perdendo a sua força até se tornarem num eco longínquo. Este livro mostra que talvez uma parte do nosso futuro ainda se esteja a jogar ali, e não só ali.
Yaroslav Trofimov é um correspondente do Wall Street Jounal. Nascido na Ucrânia e actualmente a viver na Itália, "passeia" neste livro pela Arábia Saudita, Tunísia, Iémen, Kuwait, Iraque, Afeganistão, Líbano, Mali e finalmente Bósnia. A ideia é a clássica de tentar passar para o outro lado e perceber porque "o outro" nos odeia tanto. Para tal viaja até à origem da actual onda de integrismo islâmico (o wahabismo saudí) e depois segue a sua rota, até África, até à Europa. Entra com os americanos no Iraque mas tem uma pequena vantagem: fala árabe. E o retrato, bastante objectivo, é claro. Raros são os momentos em que os americanos tenham procedido bem nestas suas campanhas. A sua sensibilidade em relação ao invadido foi "zero". Uma entrevista curta feita ao jornalista refere-se a isto mesmo. O retrato é negro. As raizes são apresentadas, mas é o adubo (o mau comportamento americano) que recebe o destaque maior. Este é um livro pessimista. E a realidade apresentada é inescapável. As 22 páginas sobre o Líbano explicam o que neste momento está a acontecer ali. Não é preciso ler mais. O comportamento e o raciocínio dos muçulmanos interrogados é apresentado de um forma cristalina e... irrefutável! . E Trofimov era (e é) correspondente dum jornal americano...
Leitura imprescindível para quem acha que Bush Jr. foi (e está a ser) um "mal menor"...

1 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

best regards, nice info film editing classes

2:53 AM  

Enviar um comentário

Terça-feira, Julho 11, 2006

Una Mujer en Berlín



Editado pela Anagrama em Espanha, este livro não terá edição portuguesa, senão dele teríamos ouvido falar.
A autora não é conhecida, pois refugia-se no anonimato mais completo. Quem ler o livro, um relato autobiográfico, ou melhor, um diário dos dias imediatamente antes e longamente após a chegada das tropas soviéticas a Berlim, perceberá o porquê.
Li em alguns sites que as mulheres alemãs "perderam duas guerras".
Este livro parece-me um contraponto interessante e extremo ( e irónico...) por exemplo a um "Diário de Anne Frank". A autora é muito alemã. Apesar do cataclismo humano que lhe cai em cima, da fome, e da violência diárias, ela não foge a retrospectivar porque ela, alemã, se encontra naquela situação. E lembra: no período dos comícios, ela e outras amigas iam de festa em festa, adoptando desprendidamente a ideologia da voz que se ouvisse. Viajada e culta, oriunda de uma burguesia desafogada, os seus conhecimentos de russo servem-lhe ora como salvo-conduto, ora são uma maldição. As referências ao Holocausto aparecem só para o fim do texto, e como uma revelação descrente, ou como um murro no estômago a quem quase não tem estômago. A consciência do horror do regime nazi não é certa. O constatar de um desacerto, sim.
Texto duro, certo mas não consensual, irónico, de um realismo difícil de levar até ao fim.
E que termina "bem", como se um filme: com o reaparecer do ex-namorado, perdido já não me lembro em qual das frentes. Não desvendo.
Livro imprescindível, também porque muto bem escrito ao virar da esquina - há 60 anos... A 1ª edição, em 1959, na Alemanha vendeu pouco...

1 Comentário(s):

Blogger redonda disse...

Entretanto, teve edição portuguesa...

3:29 PM  

Enviar um comentário

Domingo, Junho 11, 2006

Fama e Segredo da História de Portugal



Agustina Bessa-Luís nasceu em 1922, em Vila Meã, Amarante. Vive no Porto. E é o melhor romancista português vivo (e o mais prolífico). A sua escrita é rapidamente cintilante. A sua capacidade de contar uma história em meia página, como em cinquenta, como em trezentas,´surpreende. Saem-lhe facilmente as frases lapidares, os aforismos, os retratos perfeitos adquiridos por pincelada magistral. Tem portanto 84 anos. E já escreveu de tudo, excepto poesia.
Desta vez decidiu parir doze textos curtos, a que chamou de "óperas", sobre doze momentos da pátria história. Neles, quase torrencialmente, reinventa a nossa história. Não era assim que eu me lembrava das coisas. A sua escrita utiliza toda a caixa de velocidades, ao descrever-nos os tempos iddos. Volta atrás, salta, denuncia aqui e ali como que alguma embriaguez, será com a forma, ou talvez com o conteúdo... Nenhum texto nos consegue deixar indiferente. Frases há que no futuro se colarão aos eventos retratados, sempre que alguém quiser falar deles: "Agustina por exemplo disse que, a propósito de..." Dá vontade de ter dúvidas, pois entre o irreal e o sublime e o irrisório, acontecerá aqui e ali alguma reinvenção...
O importante mesmo é o som e o cair das melhores palavras. Com a ironia de um livro feito como "para coleccionador" com aspecto tipo "comic".
Ah, quanto ao facto de ter tido pre-publicação parcial no blogue Abrupto... ninguém (nos romances da Agustina) é perfeito...
ed. Guerra e Paz 2006

Las Murallas de Harar



O facto de por (apaixonado) compromisso familiar ler razoavelmente em espanhol tem as suas vantagens, não sendo a mais pequena o acesso a um mercado editorial com uma dimensão bastante superior ao mercado português. Daí que algumas vezes por ano algumas livrarias de’A Coruña recebam a minha prolongada visita, e o proveito de alguma que outra aquisição. E explicito: librerias Colón, Arenas e Nos, sendo a Libreria Colón, na Calle Real, um must.
Ora recentemente comprei lá este livro, escrito por uma canadiana, Camilla Gibb, antropóloga, e por isso com estadia prévia na cidade de Harar, Etiópia, que ela tão bem retrata. Cidade aonde chegaram Burton em 1855, e Rimbaud em 1880, este para contrair sífilis.
Hoje, a maioria dos romances são obrigados a possuir uma história fantástica, sinuosidades de argumento espantosas, e desfechos mirabolantes, para interessar o europeu ou americano que viaja de metro, ou vai de férias, ou que pretende não morrer de tédio no fim-de-semana, ou adormecer sim mas lentamente. Tem-se umas ideias interessantes para o "plot", faz-se um cursito de escrita criativa, e pumba, aí sai livro, directamente para o top ten.
"Las Murallas de Harar" parecem um pouco sofrer deste síndrome: a história de uma inglesa filha de hippies, abandonada às mão de um patriarca marroquino sufi, e que se torna uma devota muçulmana e que viaja até Harar, cidade santa muçulmana etíope, é... muita coisa. Narrativa que se cruza com o seu estar anos depois, integrada na comunidade muçulmana londrina, a ser enfermeira num hospital público. Tudo isto é descrito na 1ª pessoa, com uma paixão contida, adequadamente. O saber de base da escrita revela-se no estudo atento das relações entre classes, entre etnias, entre sexos, entre religiões. E a mais valia do livro: a protagonista é muçulmana, e muito. A sua vivência religiosa é maravilhosamente ilustrada, ainda mais com o sal do sufismo, essa quase heresia, a dar espessura ao pensamento da adolescente, loura, branca, mas devotamente a seguir uma Lei que chama sua, diariamente. E idem em Londres. E portanto também um livro que não se pára de ler até ao fim, este, embora termine um pouco em anticlímax, talvez porque no Reino Unido de hoje já não possam existir aventuras como as que a Etiópia viveu nos anos 70, 80... e até hoje.
"Soy una musulmana blanca criada en África, que ahora trabaja para el Servicio Nacional de Salud. Me hallo en algún lugar a mitad de camino entre lo que conocen y lo que temen, en algún sitio entre el pasado y un futuro que no es del todo el presente. Les traduzco los formularios antes de arrodillarme y tocar con la frente el mismo suelo que ellos. Linóleo, cemento, alfombra industrial. Cinco veces al día, dondequiera que estemos, por mucho que dudemos de nosotros mismos y del mundo que nos rodea."
Camilla Gibb tem tudo o que eu detesto num escritor: sucesso rápido, imensos artigos sobre e para, dezenas de entrevistas, prémios de "a melhor escritora jovem" etc. Mas gostei muito de ler este seu livro, "Las Murallas de Harar", ed. Alfaguara.

Sábado, Junho 10, 2006

O Labirinto



A zanga que ainda existe entre Gregos e Turcos tem raízes históricas muito fundas. E a imperícia que a União Europeia tem tido para lidar com esta animosidade, bem como o facto de ambos os países estarem a partilhar a crise europeia de serem governados por governantes escassos de ideias, torna o recente romance de Panos Karzeris "O Labirinto" extremamente actual.
De que trata? No início do séc. XX a Grécia pertencia ao vasto Império Otomano. Havia grandes colónias turcas pela Macedónia grega, pela Trácia (por isso ainda há uma importante minoria turca na Bulgária, logo ali acima). Por outro lado toda a costa turca virada para o mar Egeu estava pejada de cidades... gregas, bem como muitas povoações entrando inclusivé pela Anatólia adentro. Povoações, cidades, com o seu esqueleto grego e o seu bairro turco anexo, habitualmente mais pobre.
De uma destas povoações trata este livro, e da cega retirada de uma companhia de tropa grega, à procura debalde do mar para onde fugir, perdida a guerra com os turcos.
Panos Karzeris é grego, tem 39 anos, e vive no Reino Unido. Este livro escreveu-o directamente em inglês, mas define-se como grego... grego "mitológico". As histórias que conta procura que sejam universais. Talvez isto se aplique ao seu 1º livro "Pequenas Grandes Infâmias". Em "O Labirinto", a história obriga a sermos mais concretos. E mesmo a difícil transição entre o sonho e a realidade que com frequência acontece durante o livro, por ex. graças a um comandante morfinómano e adicto à mitologia não obsta a que este drama é tipicamente "otomano". E o onírico adensa-se quando constatamos que um exército se encontra perdido, e que toda uma povoação grega se descobre, "da noite-para-o-dia" perdida no meio de um mar turco. A pátria tinha-se deslocado para ocidente, um mar tinha-se interposto entre os dois povos.
Livro que lembrará outras escritas menos actuais (latino-americanas?) mas a Anatólia é muito um tema de hoje e este autor um escritor muito bom.

1 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

That's a great story. Waiting for more. video editing programs

10:21 PM  

Enviar um comentário

O Deserto dos Tártaros


Entre o irracional e o absurdo navega um livro hoje considerado como dos grandes romances italianos do séc. XX. Pertence a Dino Buzatti. E de que trata? Do destacamento de um jovem oficial não sabemos de que país para uma fortaleza mítica que faz fronteira com um misterioso deserto, o qual faz fronteira com um misterioso povo, mencionado como "os tártaros", embora esta denominação seja possivelmente mais poética do que real, ou geográfica.
O texto deslumbra a dar vida às correntes de alma do nosso jovem oficial, mas também ao glorificar os mais ínfimos acontecimentos, sem falhas. E de pequenas escaramuças, promoções e desencontros, mitos e detalhes se faz a vida destes homens, onde as pedras, o deserto, a fortalez – longamente descrita – soam a coisas vivas tanto ou mais do que as gentes, gentes que funcionam aqui apenas como pequenos insectos parasitas sobre um corpo maior. O isolamento, a missão que nunca chega, as rotinas de um destino infalível criam uma sensação de desprendimento do resto do mundo que insidiosamente se torna definitivo. Este livro é a história de uma vida. Publicado em 1942, em plena WW2, onde a Itália participava como se fosse um sonho, pendurada entre um império desejado e o descalabro ao virar da esquina, é considerado o melhor deste autor. E é um livro por onde já um dia passámos, um dos nossos dias/meses/anos já teve estas mesmas cores, este discurso viciante, a mesma infatigável espera vigilante... Ed. Cavalo de Ferro.

Sexta-feira, Abril 21, 2006

The Pickup

Forma:**** Conteúdo:*****
Nadine Gordimer nasceu na África do Sul - Transvaal - em 1923 e ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1991. Este livro, cujo título foi traduzido para "O Engate" em Português, é a sua penúltima obra.
E de que trata? Do encontro entre uma jovem sul-africana branca de boas famílias, à deriva, com um imigrante africano muçulmano clandestino. Este encontro nasce dessa mesma deriva (um carro que avariou) e discretamente de o encontro ser ao mesmo tempo físico e estranho. Ela desconhece que Abdu realmente chama-se Ismail. A relação entre os dois acontece entre realidades paralelas, a de um e a de outro, que se tocam na representação de uma deriva em que os dois confluem e sobretudo no teatro onde as palavras sobejam, e o papéis se apuram. E ele é descoberto. E pede-lhe para usar os seus conhecimentos para ser aceite. O que não se consegue. E depois?
Este é um livro nervoso, de estilo rápido, de períodos e palavras que não denunciam os então 78 anos da escritora. E porém nada é explicado, as declarações de princípios são aqui particularmente ausentes. Um e outra são obrigados a começar a fazer um trabalho de convergência entre as suas duas realidades, o desafio especial das diferenças e das distâncias entre culturas, gentes, cabeças, convenções. E eles. Porque ele vai ser expulso do país. E ela... a linha de contacto é no início apenas uma: o sexo. A mais simples. Ela branca, ele negro entre os negros da África do Sul, isto é, um africano não-sulafricano e clandestino. E muçulmano. Impressiona como procuram sempre um e outro fazer "o correcto", e respeitar-se a si e ao outro, e "resolver" as suas expectativas de vida, primeiramente muito diferentes. O contacto com uma cultura estranha, vista aqui discretamente por dentro (uma família muçulmana no meio do deserto), também não é explicitamente enunciado, mas disso falamos ao correr das páginas. Livro que não fala sobre: acontece. "Final surpreendente" dizem mas não concordo: este livro, e estas vidas, e estes temas não se conseguem acabar.
"Nadine Gordimer is, like fellow Nobel laureates Günter Grass and Alexander Solzhenitsyn, a towering figure of world literature and the moral conscience of her nation. She exemplifies a belief, now seemingly forgotten in a literary culture which has been under attack by the ubiquity of the sensational and the superficial, that a writer can be the mouthpiece of a time, a spokesperson for a crusade, and a tireless examiner of moral and psychological truth."
Estilo de difícil acesso, nada se explica, tudo é apreendido ao longo dos capítulos que se vão desenrolando. São estes personagens incapazes de praticar o mal, e esta é, parece-me uma das chaves. Sendo inicialmente "um engate", estas duas pessoas vão aprendendo lentamente, a partir desta circunstância transitória por definição, a viver. E possivelmente uma com a outra.
Magistral, estilo difícil mas...

3 Comentário(s):

Blogger leanordbrinick07734726 disse...

Are you stuck in a job that is leading you on the path to no where?
We can help you obtain a College Degree with classes, books, and exams
Get a Genuine College Degree in 2 Weeks!
Well now you can get them!

Call this number now 24 hours a day 7 days a week (413) 208-3069

Get these Degrees NOW!!!

BA, BSc, MA, MSc, MBA, PHD,

Within 2 weeks!
No Study Required!
100% Verifiable

Call this number now 24 hours a day 7 days a week (413) 208-3069

These are real, genuine, They are verifiable and student records and
transcripts are also available. This little known secret has been
kept quiet for years. The opportunity exists due to a legal loophole
allowing some established colleges to award degrees at their discretion.


With all of the attention that this news has been generating, I wouldn't
be surprised to see this loophole closed very soon

Get yours now, you will thank me later
Call this number now (413) 208-3069
We accept calls 24 hours a day 7 days a week.

5:27 PM  
Anonymous Anónimo disse...

What a great site »

7:04 PM  
Anonymous Anónimo disse...

best regards, nice info »

5:47 AM  

Enviar um comentário

Quarta-feira, Março 15, 2006

A Verdadeira História de Jesus

Forma:**** Conteudo:****
E.P.Sanders, professor americano de Teologia e especialista em Paulo e em Judaísmo, publicou há uns anos o livro "The Historical Figure of Jesus", título portanto mal traduzido em 2004 para o português na Editorial Notícias.
E o que é isto? é uma óptima janela sobre a Palestina de há 2000 anos, escrita e muito bem por quem sabe. Teses fantasistas de guerrilheiros, paixões ardentes e visitas de extra-terrestres, aqui não há. Aliás o livro é "discreto" e pretende ter seriedade na abordagem de Jesus Cristo enquanto figura histórica. E consegue-o admirávelmente, com bastante erudição mas sem qualquer problema de acessibilidade. É todo o livro uma lição de história antiga e sobre a génese dos cristianismos e a evolução do judaísmo daqueles tempos. Onde pode afirma, onde não pode deduz, onde não consegue deduzir não arrisca. Opta por não afrontar nem inventar, e a meu ver bem.
Sobre a Ressurreição, o "nó" do cristianismo e a chave de uma fé, não diz que sim nem que não, como óbviamente não podia dizer. Confirma sim que ela foi afiançada desde muito cedo, e que desde cedo constituiu a linha divisória que separava os cristãos de todas as restantes crenças. Linha que lentamente foi prendendo mais e mais gente, "gentios", até aos dias de hoje.

3 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

I have been looking for sites like this for a long time. Thank you!
» » »

5:45 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Very cool design! Useful information. Go on! film editing schools

4:41 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Excellent, love it! » » »

1:09 AM  

Enviar um comentário

A Pequena História do Grande Terramoto

Forma:*** Conteudo:****
Trata-se de um livro muito bem apresentado e embrulhado pela editora "Tinta da China" e onde o historiador Rui Tavares, membro do julgo que defunto blog "Barnabé", descreve de uma forma a um tempo fluente e científica os dias e as pessoas no e à volta do terramoto de Lisboa de 1755. Consegue-se aqui visualizar, ouvir, estremecer com os antes, os durantes e os depois deste evento, incluindo as repercussões que o acontecimento teve no pensamento erudito do "século das luzes", passando sobretudo por Voltaire. Hoje os portugueses não sabem o choque que o terramoto representou para toda a Europa, incluindo as interrogações sobre o porquê do acontecido, do seu eventual determinismo como castigo de uma Lisboa decadente e pecadora, etc.
Livro que se lê de uma penada, leve, gracioso, mas que não deixa de ser exacto e bem escrito. Escrita que às vezes peca por uma excessiva leveza... sequelas do bloguismo?

4 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

I have been looking for sites like this for a long time. Thank you!
» » »

8:29 AM  
Anonymous Anónimo disse...

This is very interesting site... » »

2:13 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Cool blog, interesting information... Keep it UP » » »

12:37 AM  
Anonymous Anónimo disse...

That's a great story. Waiting for more. bentley of southern california cars Gestapo jackets http://www.tadalafilbialisfromindia.info Giochi gratis ppc qtek2 Car alarm installation car alarm wiring

3:58 AM  

Enviar um comentário

Sábado, Janeiro 28, 2006

Dinastias *****

Forma:**** Conteudo:*****

A autora (que por acaso é minha prima... :)) tem apenas 19 anos. E a aposta da Papiro Editora é... ousada. O livro, nas suas 50 e qualquer coisa páginas, é como que um ensaio sobre a vida e a morte, escondido por trás de um "romance" de 3 gerações de mulheres da mesma família. Desenvolve-se em volta de cartas que umas escrevem às outras, onde expressam as suas mágoas e alegrias, num tom melancólico e resignado e vão filosofando sobre a essência da existência. Vale muito pelo que é dito (assim num estilo Virgílio Ferreira), mas mais ainda pelo que fica (como a própria autora indica) nas entrelinhas. A forma é interessante, esta mistura entre romance e ensaio, mascarada por trás de 3 pequenos contos que existem em si próprios mas se articulam no tempo. Mas o conteúdo revela uma maturidade própria de uma "crise" dos 40!!!, mas a autora nem sequer tem 20.
Sou suspeito, mas recomendo. Para quem conhece a autora, revelam-se quando em onde umas incofidências auto-biográficas, misturadas no ser das 3 personagens femininas que dominam a obra.
Mafalda Borges... espero que tenha sucesso!

3 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

Cool blog, interesting information... Keep it UP Xl latin girls bet 106 &park Charlotte web promotion Botulinum toxoid toxoids antigen Generic viagra on line

12:05 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Very cool design! Useful information. Go on! » »

12:17 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Keep up the good work film editing schools

7:38 AM  

Enviar um comentário

Quarta-feira, Dezembro 28, 2005

Movimentos no Escuro

Forma:***** Conteudo:****
Ora finalmente José Miguel Silva, nado e criado em Gaia, colheita de 1969, oferece-nos outro livro de poesia de factura soberba, depois de "Ulisses já Não Mora Aqui" (2002). Firmemente ancorado na geração de setenta, a sua escrita poética está capaz de grandes proezas, e a gestão da eloquência e do sentimento é refinada. Não deixa de ser um tímido descontente. Não evita o risco que é todo este livro: poemas escritos "sobre" 45 filmes (e a final Porto-Bayern...). Por ex.: o meu "A Caminho de Idaho" não se reconhece no poema produzido por JMS, mas paciência, são coisas...
Vejamos:

CARTA DE UMA DESCONHECIDA - MAX OPHÜLS (1948)

2.

Feliz é quem percebe a tempo aquilo que ama.
Esse não vai ao engano, não se mete onde não presta,
desconhece o desconsolo de uma carta fora de horas,
quando está já de roupão e chinelos de quarto,
a cabeça uma colónia de fantasmas escarninhos.

Dar ouvidos, insistir, escolher a restrição do amor,
não vejo que outra coisa seja digna de um homem livre.

Terça-feira, Dezembro 27, 2005

Que Comboio é Este

Forma:**** Conteudo:****
A.M.Pires Cabral é um poeta trasmontano que discretamente mas logo muito bem começou a publicar nos anos 70. Por lá (Trás-os-Montes) continua e este ano, e agora, publicou uma quase-plaquette de 19 poemas com temática ferroviária, edição Teatro de Vila Real.
O fazer deste poeta é muito seguro, e de construção certa e eficaz. O seu livro "Artes Marginais", colectânea publicada em 1998 do até aí escrito, é um dos livros a reter da poesia do último quartel do séc. XX. Os vocábulos "seguro", "certo" e "eficaz" que não enganem, porque esta poesia não se engana. É justa. E na justa imagem criada, a qualidade está, poema a poema.
Como aqui:

"AJUSTE

Da viagem que direi?

Tácito ajuste singular,
de que os outorgantes
somos eu e a bruma.

Ajuste segundo o qual
nascer equivale a ser exposto
num comboio.

E não se pode rescindir o ajuste.
Nem querelar da bruma."

Porto de Abrigo

Forma:*** Conteudo:***
Saiu o último livro de poemas de Jorge Sousa Braga, na Ass&Alvim. Não são muitos, os poemas. Nem é muita, a poesia aqui contida. JSB é um poeta que começou a publicar cedo, nos 80's. Tem uma capacidade lírica e musical talvez única em quem vivo escreve poesia portuguesa. Mas aqui e hoje parece-me cansado. Triste e deprimido. A cidade do Porto em que vive e trabalha aqui está. Mas o poeta já não se eleva como antigamente, ou só a espaços. Claro que aqui ainda estão coisas perto do sublime, como:

"DUNAS

Conhece-os bem os narcisos
e os cardos roladores com as

suas inflorescências azuis quem
anda pelas dunas ao fim da tarde

Enterram fundo as raízes na
areia e florescem florescem

enquanto à volta tudo arde."

Posia de metáfora tão viva como a de JSB e de circo tão vivo mantem-nos a memória fresca, por isso neste livrinho alguns escritos soam a velho truque refeito agora que caminhamos para os 50... Mas perdoamos, oh sim, este senhor já nos deu muitas alegrias, e compramos, oh sim, pois poucos livrinhos ficam melhor para a tal leitura rápida no Metro quem vai para a Trindade ou para o Dragão...

Domingo, Dezembro 18, 2005

Adeus Princesa

Forma:*** Conteudo:***
Reapareceu nos últimos dias nos escaparates das notícias a bióloga Clara Pinto Correia. Mulher de 40's, doutorada nos States, vítima de uma polémica recente sobre um copy and paste julgo q do New Yorker numas crónicas suas...
Importa sim para aqui que, quase seu contemporâneo, acompanhei de perto o aparecer como escritora desta menina, de sorriso rasgado e triangular, de repentismos brilhantes e olhinhos escuros a brilhar a brilhar. A sua segunda novela, "Agrião!", dera muito que falar, o conto "Um Esquema" deliciou-me, e aí apareceu o êxito "Adeus Princesa", estamos no ano de 1985. Vinte anos depois, dediquei-me a lê-lo, em honra de.
Romance policial alentejano, eis o paradoxo. Muita juventude perdida, Baleizão a perder o sul de uma revolução que aos poucos fica sem cor. Ao lado a base de Beja com seus alemães. Na intercessão disto um amor adolescente e muito haxixe (eram tempos de e CPC usava muito o cheirinho nos seus textos, vidé Agrião) e um morto. Lê-se sem parar, o texto é recortado e coloquial, tem curvas e contracurvas, algumas asperezas, tudo parece-me bem conduzido. Mas mas mas, ao contrário do já lido, tenho sérias dúvidas e portanto alguma reserva sobre se a autora tem alguma simpatia real por qualquer dos personagens. "A carne é fraca mas o molho é bom", ou algo que o valha, é este o final feliz do 1º romance de Clara Pinto Correia, mas tenho re-dúvidas sobre se a tese está bem demonstrada ao longo do texto, demasiado entrecortado com o fogo-de-artifício de quem escreveu talvez mais para se mirar num espelho do que para outra coisa...

Domingo, Dezembro 11, 2005

A Mais Bela História Dos Animais

Forma:*** Conteudo:****
Edição da Asa na colecção Ponto de Encontro, esta tradução de um conjunto de entrevistas lê-se com prazer. Sucessivamente desfilam nas palavras ditas a história mais antiga da vida e dos animais, a domesticação, o animal decorativo, o animal alimento, etc., etc. Em linguagem certa a um tempo e pouco técnica. A jornalista Karine L Matignon entrevista o paleontólogo Pascal Picq, o etnólogo J-Pierre Digard e o neuropsiquiatra Boris Cyrulnik.
“Os veterinários dizem-me que estão convencidos que os cães e os gatos riem. Os chimpanzés sorriem, sabemo-lo agora. Escondem os dentes superiores sob o lábio superior porque mostrar os dentes é um sinal de agressividade. Diz-se que os ratos também são capazes de rir.” E nós?

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

Mongólia

Forma:**** Conteudo:****
Trata-se de um romance relativamente escasso de páginas que se disfarça de policial em viagem, já que a estranheza da Mongólia domina todo o livro. A estranheza que é a de um outro muito longínquo, periférico a um dos países mais periféricos do mundo. O relato entrecruza escritos de um diplomata que lembra outro (e seu escritos) que foi profissionalmente obrigado a procurar um fotógrafo brasileiro perdido no leste do Gobi. Mistério que só se resolve nas últimas páginas como deve ser, tal como o gosto pela escrita em português brasileiro que primeiramente se estranha.
Lê-se num jacto portanto este livinho de Bernardo Carvalho, brasileiro de 45 anos e que há 2 anos recebeu uma bolsa da Fundação Oriente para viver na Mongólia e daí fazer um romance, com edição na Cotovia. Assim também eu? Não, missão brilhantemente cumprida.

1 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

Enjoyed a lot! auto guages for volvo mature hairy woman Second lien loan

12:30 PM  

Enviar um comentário

Sexta-feira, Setembro 23, 2005

Retalhos da Vida de Um Médico *****

Forma:**** Conteúdo:*****

Convém começar por dizer que Fernando Namora era um médico. Um médico daqueles que já não existem. O João-semana dessa outra grande história da literatura portuguesa. O Doutor de Coimbra. O Beirão que se apaixonou pelo Alentejo, mas acima de tudo a Pessoa que se apaixonou pelas "nossas gentes".

Todas as histórias nos são apresentadas de uma forma dramática e emotiva. O primeiro volume, mais clínico, de um médico mais jovem, mais enérgico e com gosto pelos desafios médicos. O segundo, mais maduro, mais "pensado", envolvendo-nos melhor na trama psicológica das histórias. Ambos deliciosos...
Das histórias da faculdade às peripécias médicas, criando intimidade facilmente, desabafando as suas angústias e dúvidas e remetendo-nos para a vertente de vida pessoal que o médico também tem...

A ler por todos os que se interessam pelas pessoas e acima de tudo por todos os que não querem ficar presos aos "preconceitos" do médico aldrabão e dos "doentes coitadinhos"... Um bom relato da miséria humana que se vivia (vive) no Portugal de então...

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

Os Ingleses no Egipto

Forma:**** Conteúdo:****
Este pequeno volume editado pela Caminho é Eça de Queirós vintage. É o conjunto de várias crónicas publicadas num jornal brasileiro em 1882, e onde, com a ironia ponteira que o caracteriza, o nosso amigo Eça trucida a campanha inglesa de "reposição da ordem legal no Egipto", para defesa dos interesses ocidentais. Na prática tratava-se da instituição de um protectorado sobre esse país, com o controle completo da zona do canal do Suez, um acontecimento que foi paradigmático do séc. XIX colonial europeu e inglês, e que apresenta preocupantes paralelismos com a actual situação mesopotâmica. Como aparece na "oportunista" mas certeira nota introdutória da editora, "o leitor pode mesmo divertir-se a encontrar as semelhanças e as diferenças". Ora tentem.
Falhou Eça porém nas considerações tidas sobre o futuro da religião muçulmana, e da improbabilidade das jihads e das fatwas. Não contava ele talvez com a perene estupidez ocidental no seu relacionamento com o mundo árabe.

4 Comentário(s):

Blogger tripeiro disse...

Li algumas, nas Crónicas Diversas de Eça de Queirós... E é de facto um vintage. O seu humor mordaz e "very british" seria desesperante para os ditos, caso tivessem a "humildade" de o ler...

Brilhante a descrição do Canal de Suez. Eça, terá sido talvez o primeiro dos realizadores de cinema, tão precisas são as suas descrições de locais, gentes e acções. A ler, reler e treler sempre que possível...

11:09 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Excellent, love it!
» »

3:30 PM  
Anonymous Anónimo disse...

What a great site Ford bronco skylar top saab 9 3 hood protectors Decks patios driveways wellton arizona Engine internet marketing ppc search http://www.dance-partner-7.info/saab9000suspension.html Lacoste pour homme aftershave 50ml perfumes Graduate interior design program Transilvania sex Topamax and glaucoma Cataract surgery posters http://www.dodgediplomat.info/saab_auto_part.html Discounted ritalin Mobile phone logos of close to the edge Folding wood dining chair

8:48 AM  
Anonymous Anónimo disse...

I have been looking for sites like this for a long time. Thank you! swimsuits bmw x5 Cosmetics in sylvania oh ohio cialis concerta er Tabloid inkjet reviews 2006 defense attorney spam blocker diet pills

7:18 AM  

Enviar um comentário

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

A Máquina do Tempo

Forma:**** Conteúdo:****
Primeira novela de H. G. Wells, lê-se de um fôlego. E trata de uma viagem de um cientista do séc. XIX em direcção a um futuro muito distante, onde a humanidade, por força de um aprofundar das desigualdades sociais se dividiu em duas entidades distintas: os "eloi", habitantes infantis e descuidados de um paraíso diurno, e os "morlock", trabalhadores subterrâneos cruéis e brutais, que durante a noite caçam e comem os "eloi". Os "eloi" não sabem fazer nada e dependem dos "morlock" para tudo, submetendo-se à fatalidade de ocasionalmente servirem de repasto a.
H. G. Wells pertencia aos defensores cépticos do então chamado socialismo utópico. Este pequeno romance de "antecipação científica" nunca foi tão actual: Somália, New Orleans...

2 Comentário(s):

Blogger tripeiro disse...

E actualmente quem seriam os eloi e os morlock???

Não li o livro, mas vi o filme... História interessante...

11:05 PM  
Anonymous Anónimo disse...

This is very interesting site... lexapro - loss of libido in 20 year boy Creditcard numbers and the owners+ 1962 chevrolet truck front bumper Tennessee titans jacket amateur fucking plain cholesterol bikini model jade concordia college illinois gwinnett county ga community colleges

10:01 PM  

Enviar um comentário

Terça-feira, Agosto 09, 2005

O testamento *****

Forma:***** Conteúdo:****

Um velho milionário excêntrico, um advogado bêbedo e uma missionária no Pantanal brasileiro. O velho salta para a morte e o advogado reabilitado é mandado para o Brasil, para descobrir uma missionária que ninguém sabe quem é, que ficou com toda a fortuna.
No fundo, uma história típica de John Grisham. Com o seu ritmo rápido, por vezes frenético, mas sempre empolgante e "moral". Uma escrita brilhante e uma autêntica viagem ao "grande rio" do Pantanal brasileiro. Candidato a argumento de um filme de Hollywood... :)

O Lago sem Nome ****

Forma:**** Conteúdo:*****

Diane Wei Liang era uma jovem estudante universitária na Primavera de 89. A sua vida, passados os conturbados períodos da Revolução Cultural, parecia começar a normalizar. O seu curso de Psicologia e os seus amores pareciam ocupar toda a sua vida quando, como que de repente o Partido transforma-se e germina a Manifestação de Tiananmen. A sua vida (e de todos os estudantes universitários de Beijing - e de toda a China), alterou-se para sempre. Separada do seu grande amor, parte para a América, em busca de liberdade. Passados vários anos, já doutorada, é convidada a regressar à China "capitalista" e sofre com as recordações do seu grande amor, dos seus pais (de quem esteve separada mais de uma década) e da "sua" Beijing irremediavelmente modificada.
Um relato emocionante da luta estudantil e do sofrimento na China comunista, contado na primeira pessoa e desmascarando toda a "propaganda" do regime...

4 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

Excellent, love it! » »

6:22 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Looking for information and found it at this great site... Interracial speed dating Phendimetrazine top deal tamiflu Financial planning in pittsford new york Softball sayings for t shirts Retail store website templates maytag heavy duty washers 14 cycles

10:26 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Looking for information and found it at this great site... »

1:36 PM  
Anonymous Anónimo disse...

You have an outstanding good and well structured site. I enjoyed browsing through it »

7:54 PM  

Enviar um comentário

Leadership *****

Forma:***** Conteúdo:*****

Brilhante... Os conselhos de liderança e trabalho de equipa, dados por um dos MESTRES. Rudolph Giuliani, o ex-mayor de Nova York, conta-nos os princípios que nortearam a sua presidência: a recuperação da "moral" dos nova-iorquinos, a descida do crime, o aumento de receitas através da baixa de impostos, a melhoria da qualidade de vida e a mestria com que guiou a cidade após os ataques do 11 de Setembro. Uma mistura de uma auto-biografia, em que expõe pormenores íntimos da sua vida pessoal e de um livro de auto-ajuda, com conselhos práticos sobre como se tornar num bom líder...
Recomendável a todos os níveis... Ah... E uma das suas primeiras medidas foi "to be held accountable" - mostrar a todos que ele era o responsável pelas suas medidas, para o bem e para o mal!!!

2 Comentário(s):

Blogger Preze disse...

Concorde-se ou não com as políticas implementadas pelo ex-Mayor de Nova Iorque, este é sem dúvida um livro para ser lido, acima de tudo, porque demonstra com clareza a importância de organização e rotinas e apresenta algumas sugestões relativamente à postura a ter face a determinados tipos de problemas.
A versão em Português tem uma tradução péssima, cheia de gralhas, por isso recomendo a quem ainda vai ler o livro que compre a edição em Inglês

2:13 AM  
Anonymous Anónimo disse...

You have an outstanding good and well structured site. I enjoyed browsing through it »

6:13 PM  

Enviar um comentário

Quarta-feira, Junho 29, 2005

O Processo

Forma:**** Conteúdo:****

Kafka é um daqueles escritores de culto. Ou se gosta, ou se detesta. Li e gostei... O mundo Kafkiano apesar de intemporal e sem espaço definido, pode-se adequar a qualquer um de nós! Tão logo revejo a Praga de Kafka neste livro, como qualquer outra cidade do leste europeu, ou até mesmo qualquer outra cidade escura e soturna. As personagens, psicologicamente densas, surgem em redor de um processo cujo conteúdo nem acusado nem acusador conhecem. A sociedade burocratizada levada ao extremo, desperta a reflexão acerca da organização social dos regimes "socialistas".

Aposto que todos os bons funcionários públicos aprenderam muito com este livro... As mil e uma formas de "encravar" um processo...

A ler pelo menos uma vez na vida, se se conseguir penetrar na "densidade" da trama.

7 Comentário(s):

Anonymous H Morgado disse...

Este é de facto um livro para FP lerem e reverem... é chato que o possamos ser...!

3:31 PM  
Blogger tripeiro disse...

morgado??? és mesmo tu??? nunca me esquecerei da 1ª sessão de praxe, nem da tua última!!!

abraços

11:34 PM  
Blogger Vateira disse...

Já li este 'Processo' do brilhante Kafka, gostei bastante, é uma sátira ardente à burocracia da nossa administração pública.
Infelizmente, só com cunhas e conhecimentos é que se consegue acelerar um processo, seja na justiça ou na saúde.

5:09 PM  
Anonymous Anónimo disse...

What a great site
» »

6:51 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. 26 2c hosiery lingerie sleepwear Baseball team for sale http://www.affiliate-program-5.info/italyunitedkingdompayperclickbidmanagement.html last minute travel orlando i ching online trading The maker of bontril

10:27 PM  
Anonymous Anónimo disse...

You have an outstanding good and well structured site. I enjoyed browsing through it Purdue+university+online+writing+lab Ford truck plant http://www.zithromax-6.info/dressup-love.html

7:39 AM  
Anonymous Anónimo disse...

best regards, nice info projector headlights 2000 mustang All inclusive golf vacations in the bahama's fog humidifier Braselton ga private golf community liposuction Zocor and m s Fbi and home land security Indiana printers Tramodol tramadol 180 pills $129 free fedex Cvs security systems Airline finance news yahoo http://www.play-free-slots.info dunlop tires Bras n things nz Canada unlimited internet connection patent

7:13 PM  

Enviar um comentário

Sábado, Junho 11, 2005

A Invenção Do Dia Claro

Forma:***** Conteúdo:*****
Trata-se de uma dezena de repentismos postos sob a forma de um livrinho editado por José de Almada Negreiros em 1921, e agora reeditados em edição fac-símile pela Assírio & Alvim.
E como repentismos que me parecem ser, são rasgos de génio. Sete anos depois do Orfeu, creio, temos aqui sob a formas de brilhantes erupções solares o fim do Modernismo Português, enquanto estilo. E Almada no seu melhor. Disfrutem. Incluindo, claro, grafia antiga...

3 Comentário(s):

Anonymous Anónimo disse...

That's a great story. Waiting for more. » »

3:47 PM  
Anonymous Anónimo disse...

best regards, nice info »

6:46 AM  
Anonymous Anónimo disse...

Cool blog, interesting information... Keep it UP » » »

4:11 PM  

Enviar um comentário

Quarta-feira, Abril 20, 2005

NeverWhere - Na Terra Do Nada

Forma:**** Conteúdo:****

Neil Gaiman foi o argumentista da série de BD de culto Sandman. Depois, começou a escrever, já que a sua primeira obra tinha sido em 1984 um livrinho sobre os DuranDuran. É melhor passar adiante. Ou recomeçar.
Neil Gaiman, inglês de quarente e algo a viver no Minnesota é para muitos o melhor escritor do fantástico da actualidade. E este livro ajuda em muito à fama. Derivado de ums série televisiva da BBC de 1996, pelos vistos muito galardoada, saiu - o livro - em 1997 e explica que a Londres que nós conhecemos é só a Londres-de-cima, e que simultaneamente existe a Londres-de-baixo. Richard-de-cima apanha com Door (de-baixo) um belo dia a sair de um muro onde porta não havia. Mas Door abre portas onde não as há, e Richard vai ter que decidir o que fazer com o corpo ensanguentado caído à sua frente. E não se pode estar em contacto com duas realidades ao mesmo tempo. Quase 300 páginas, mas que se lêem num jacto. Onde o Metro de Londres é pivô, como interface entre os dois mundos. E é mais do que fantasia, mais do que gótico inglês. É também uma bonita história.

0 Comentário(s):

Enviar um comentário

Segunda-feira, Abril 11, 2005

Memórias de um Craque

Forma:**** Conteúdo:****
Este livrinho da Assírio & Alvim é um conjunto de vinhetas literárias do melhor que há, escritas como croniquetas para o Record pelo Fernando Assis Pacheco, anos setenta. São sobre a sua infância futebolística, isto é, sobre a sua infância. E que pena que já não se possa ser criança assim. Quem não percebe o fascínio que uma bola produz sobre um rapaz, que leia isto, e prontos ! Quais video-jogos, quais skull. não-sei-quê, isto é que era a mãe natureza-humana em plena criação ! Escrita cintilante/corriqueira, como tudo na vida. Destes, já não há mais.

Domingo, Março 27, 2005

Animal Animal um bestiário poético

Forma:***** Conte?do:*****
É mais uma colectânea de poesia organizada por Jorge Sousa Braga para a editora Assírio & Alvim, e esta vale mesmo a pena, como as outras, aliás. "Um provérbio japonês diz que "todo o animal, mesmo o mais pequeno, tem uma alma"". E cá estão eles, dignos e silenciosos, na poeira luminosa que assentam lentamente após cada leitura, cada passagem. Organizada alfabeticamente, após dois poemas a criar o passo, começamos pela abelha, e terminamos na zebra: "Zebra / liberta / no campo / o teu belo / cavalo branco".
A poesia tem destas coisas, lê-se bem num autocarro, quando se espera alguém, ou depois de um desencontro, a poesia é como um café bem tirado, a poesia é ainda melhor.
E este pequeno texto é um convite

3 Comentário(s):

Blogger Viuva Negra disse...

Bom gosto a Assirio & Alvim , estão sempre a surpreender , eu gosto muito do meu Poemario e da Rosa do Mundo!

3:13 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Cool blog, interesting information... Keep it UP Georgia boot millennium 2000 trekker Gmc truck manuals Dodge jacket

12:34 PM  
Anonymous Anónimo disse...

Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. » » »

6:24 AM  

Enviar um comentário

Quarta-feira, Março 23, 2005